Sobre reencontrar O sétimo selo

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Todos nós já passamos pela seguinte situação: revisitar um lugar, geralmente um local da infância ou da adolescência, e sentir um forte estranhamento. Há duas semanas, passei por esse tipo de experiência, mas não por causa do lugar no qual entrei – um dos cinemas alternas da região Paulista/Augusta -, e sim por conta do filme assistido ali. Me refiro ao O sétimo selo, obra-prima de Ingmar Bergman.

Não sei quando vi pela primeira vez O sétimo selo, porém sei que assisti ao filme em Campina Grande, alugando-o, em VHS, na Tela Vídeo ou na KF. Dias desses conversava com um amigo sobre essa época de cinefilia em locadoras. Vejo cada vez mais locadoras fechando, o que é uma pena, embora eu próprio há muito tempo não entre em uma. Ao longo da minha adolescência, só havia dois cinemas em Campina Grande e cada um deles exibia um filme por vez. Ocorria, aliás, uma curiosa inversão, na qual o nome de cada estabelecimento significava o oposto da programação a ser exibida. Assim, o cinema chamado Capitólio só exibia filmes pornográficos, ao passo que o Babilônia… Filmes do circuito comercial.

Lá pelos 15, ou 16 anos, eu procurava coisas diferentes na vida, procurava, não sei, novas lentes pelas quais poderia não só ler o mundo, mas dizer a mim mesmo de uma maneira própria. Por isso, agarrei o cinema com todas as forças, assistindo, em um período de uma década, a quase tudo de bom e horrível que podia (incluindo, aí, ir a festivais de cinema com devoção religiosa, participar de cineclubes, garimpar curtas, etc). Desconfio, aliás, o quanto vejo o mundo e me expresso formado bem mais pelo cinema do que pela literatura, apesar de hoje pagar minhas contas com a última. Porém hoje em dia filmes me entediam, em especial coisas novas. Evito ao máximo ir a sessões de cinema; o burburinho dos festivais virou uma experiência excruciante. Como eu conseguia assistir, no Cine PE, a tantos filmes um atrás do outro? Hoje, isso é um mistério para mim. Mas não jogo a responsabilidade do meu desinteresse para uma Decadência da Cultura Universal. Acontece que cedo fiquei rabugento demais (e não vejo charme algum nisso).

Três tipos de experiência, três tipos de paz: o primeiro gole na cerveja gelada; a entrega após o sexo; o apagar das luzes dentro de uma sala de exibição. Em todas as três, o corpo se esquece. No caso da última, me refiro em especial ao escuro, cuja duração consiste em poucos segundos, da transição entre o último trailer e o início do filme. Em seu ensaio Ao sair do cinema, Roland Barthes compara a experiência da sala de cinema a uma sessão de hipnose, na qual o espectador não pode deixar de “abismar-se num cubo sombrio, anônimo, indiferente, onde deve se produzir esse festival de afetos que se chama um filme”. Barthes traduziu bem os lugares sempre inacabados aos quais retornamos, os lugares que são, também, os filmes de cujo amor não podemos desistir. Neles, se realiza o festival de afetos.

Quando, na primeira cena, o céu se acendeu na tela e ouvimos um coro cantando, não pensei em Deus, no Universo e Tudo o Mais, mas sim na sensação tátil de ter segurado, pela primeira vez na locadora, a caixa VHS, o plástico descascando nas pontas, d’O sétimo selo. Minha única frustração ao longo dos 90 e poucos minutos foi a projeção digital não ocupar a tela inteira do cinema, deixando, tanto à direita, quanto à esquerda, molduras negras semelhantes a marca-textos. Elas me diziam: “em algum momento, você será obrigado a despertar”.

Não lembrava o quanto O sétimo selo é engraçado. A atmosfera gótica do filme esconde um outro filme, secreto, com ótimas piadas, em especial quando o personagem Jöns, vivido por Gunnar Björnstrand, está em cena. Não recordo de ter rido tanto quanto eu ria agora. Também não recordo, quando vi pela primeira vez, de ser tão tocado pelo casal Jof (Nils Poppe) e Mia (Bibi Andersson). Os dois personagens encarnam, até em excesso, a pureza, a inocência, a bondade. Apesar disso, me emocionei com a generosidade com a qual eles vivem no mundo. E já que estamos no terreno das loiras que nos atormentam os sonhos, há uma irresistível humildade na interpretação de Bibi Andersson, se a compararmos, por exemplo, com os papéis definidores de Marilyn Monroe, Anita Ekberg, ou Grace Kelly.

Nessa nova visita a O sétimo selo, também mudou minha relação com seus anfitriões. Aos vinte e poucos, eu me enxergava em Antonius Block (Max von Sydow). O cavaleiro medieval busca respostas sobre Deus e a transcendência. Sua angústia, bem como seus possíveis pecados de guerra, o transformaram em um ser solitário, melancólico, dilacerado pelos próprios questionamentos. Poderia até dizer que seu tipo físico parece com o meu, já que é a mesma cara chupada, o porte desajeitado, encurvado. Em certo momento, Block diz: “Fé é um tormento. É como amar a alguém que está lá fora nas sombras, mas que nunca se revela, não importa o quão alto chamemos”. Hoje, contudo, prefiro conversar com Jöns, seu cínico escudeiro. Jöns é mundano, bebe, ri de si mesmo, viveu com várias mulheres. Talvez não creia em Deus e, embora isso o angustie, não quer anular a vida na busca sem fim por respostas. As melhores falas são as dele: “O amor é tão contagioso quanto um resfriado. Se tudo é imperfeito neste mundo, o amor é perfeito em sua imperfeição”; “Você tem algum brandy? Eu só tenho água. E isto está me deixando com tanta sede quanto um camelo no deserto”.

A solenidade de Block encontra seu antídoto em Jöns, que cria uma saudável distância de tudo, de todos e, principalmente, de si mesmo. Mesmo assim, caberia perguntar: é um homem feliz? Não sabemos. O que conhecemos, entretanto, é a solidão do cavaleiro e seu escudeiro, que no fundo formam, juntos, um ser só. Na bela cena final, quando nós espectadores assumimos o ponto de vista da Morte, que chegou no castelo para ceifar, sem distinção, nobres e plebeus, é das personagens femininas a sabedoria final. Enquanto Block e Jöns ainda discutem sobre Deus e a celebração da vida, elas dizem: “Silêncio, silêncio”. E por fim: “terminou”.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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