Sofia, uma ventania para dentro – Sidney Rocha

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

Autor: Sidney Rocha (Juazeiro do Norte-CE, 1965). Atualmente mora no Recife. É autor do romance Sofia, uma ventania para dentro (1994) e do volume de contos Matriuska (2009). Integrou a antologia Geração Zero Zero (2010).

Livro: Sofia, uma ventania para dentro é o livro de estreia de Sidney Rocha. O livro venceu o Prêmio Osman Lins em 1985. O livro foi lançado originalmente em 1994. Esta nova versão é a terceira e será lançada em setembro pela Editora Iluminuras.

Tema e Enredo: O romance trata dos encantos de Sofia, uma mulher fascinante sobre o narrador, a crise existencial provocada por encontros fortuitos em um homem que passa a duvidar de suas convicções.

Forma: Narrado em primeira pessoa, o romance faz uso de fluxo de consciência não-linear, seguindo a estrutura distorcida natural ao processo de lembrar.

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“Deixe tudo isso estar assim, sem ser dito de um todo”

O título do primeiro romance de Sidney Rocha, Sofia: uma ventania para dentro, parece indicar a presença marcante de uma personagem feminina, mas aos poucos, durante a leitura, passamos a suspeitar que talvez o livro não seja exatamente sobre Sofia, mas sobre os encantos desta mulher fascinante sobre o narrador, a crise existencial provocada por encontros fortuitos em um homem que passa a duvidar de suas convicções.

Este narrador sem nome definido parece convidar o leitor para um bar e então repassa seu percurso de gradual aprendizado emocional. A narração em primeira pessoa não deve ser confundida com estratégia para forjar intimidade; Sidney parece seguir o ritmo acelerado de urgências afetivas, as necessidades de criação baseadas mais em instinto do que em regras. O narrador descreve fatos pessoais em fluxo de consciência não-linear, seguindo a estrutura distorcida natural ao processo de lembrar.

É este personagem que parece elevar o livro; a descoberta de uma voz fragilizada pelo dilema de contar ou não detalhes de um relacionamento recente; resta, então, literatura: inventar, sonegar, recordar, confiscar. Através do relato desse narrador, cuja personalidade é revelada aos poucos e ao fim resta quase nada, Sidney parece indicar seu método: as mentiras que os escritores contam, a verdade ninguém nunca sabe.

O narrador é incapaz de conjugar o verbo “perder”, habituado apenas ao significado de “esperar”. No rigoroso procedimento de seleção de palavras, Sidney consegue um efeito essencial: cria significados pessoais para termos comuns, transformando expressões do cotidiano em campos de batalha; o delicado equilíbrio entre experimentação literária e progressão narrativa, pesquisa atrelada ao contexto dramático; o prazer na escolha de palavras e sons de alguma forma significativos.

A personagem Sofia é uma mulher vista pelos olhos de um homem apaixonado: tem cabelos que dançam e deixam rastro de música, um tipo de espírito livre que anda pelo mundo desde os dois anos. O relacionamento entre o narrador e Sofia torna-se progressivamente interessante na dicção peculiar de Sidney, que na economia de informações e no estudo minucioso das palavras cria um ambiente narrativo que fascina pelo que permanece oculto, escondido – a instância íntima dos personagens.

Chama a atenção ao longo da leitura a repetição; frases, palavras e imagens retornam, sugerindo novos significados a cenas pregressas, redefinindo características, provocando rupturas. A própria prosa parece estruturada em aliterações: a melodia das palavras, o ritmo das sílabas, a alternância dos verbos como uma aposta lírica. As preferência por frases curtas parece acentuar a vibração de um enredo mínimo.

A partir de imagens reincidentes, como um cabelo que dança ou uma declaração feita sem mexer a boca, o autor parece criar cenas que através de uma espécie mágica de realismo indicam perdas – a beleza sinuosa de um mistério a ser descoberto. São repetições que aprofundam um tipo de abismo onde se encontra o protagonista: imagens que voltam sem convite, como assombros.

Essa espécie de estranhamento parece especialmente instigante quando percebida dentro de um enredo clássico de homem conhece mulher; os códigos tradicionais de uma história de amor são revirados ao ponto do desconhecimento – são as incertezas que guiam o enredo. É possível imaginar a rotina do narrador, seu trabalho absolutamente banal, cenas de uma existência vagamente familiar, reconhecível por certas condições, mas nada disso parece claramente explicado; são sensações turvas, que revelam mais um estado emocional do que um enredo no sentido tradicional.

Há também repetição de outra natureza, essa talvez de menor alcance por estar baseada em um efeito prefigurado. O narrador fala de um mundo cheio de “mazelas”, pessoas corrompidas pela “bolha asséptica dos shoppings” ou que se derretem “no sofá diante da TV”, “na frente do computador”. São repetições que recorrem ao que é evidente, análises talvez pertinentes mas comuns, sem o encanto brumoso de outros trechos; não parecem revigorar a linguagem, apenas repetir outras vozes.

O livro foi lançado originalmente em 1994. Esta nova versão – a terceira – é, segundo o autor, cerca de 50% menor. Há na proposta um efeito duplo curioso: o leitor conhece Sidney escritor, 20 anos mais novo, e Sidney editor, duas décadas mais experientes. A combinação parece gerar um livro único, sugerindo a existência possível de várias histórias dentro de um mesmo livro: depende do que é destacado ou sonegado. A escrita deixa de ser palavras empoeiradas e se torna organismo vivo, território difuso de caminhos viáveis.

Hugo Viana

Lido em abril de 2014

Escrito em 28.04.2014

[/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Sofia

Sidney Rocha

Iluminuras

3ª edição, 2014

96 páginas

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Raimundo Carrero

“Esta novela de Sidney Rocha revela algumas qualidades que reafirmam seu talento de escritor. A primeira delas, sem dúvida alguma, é a capacidade de contar a história num estilo direto. Sem muitas metáforas, ele vai ao assunto com simplicidade e convicção. É claro que esta é uma das buscas essenciais do escritor. A segunda delas, e nem por isso menos importante, é a maneira como traça o perfil de personagens, Sofia e o narrador, sobretudo. Gosto do escritor cujo talento não se esconde atrás de palavras grandiloquentes nem de expressões feitas por encomenda. Além disso, há uma ironia que perpassa todas as páginas, que atravessam de leve o enredo, e que envolve o leitor sem forçar piadas de mau gosto. É, portanto, um escritor com raro domínio da forma, naquilo que os clássicos chamam de “le mote just”. Sem que seja, todavia, um discípulo de Flaubert. Ambos se entendem muito bem, embora seguindo caminhos antagônicos.”

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Matriuska

O destino das metáforas

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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