Sombra Severa – Raimundo Carrero

0

AVALIAÇÃO

80%
80%
Muito bom
  • Thiago Corrêa
    8
  • Avaliação dos visitantes (Avaliações)
    2.9

PRÓLOGO

Autor: Raimundo Carrero (Salgueiro-PE, 1947). Recebeu o Prêmio APCA, o Prêmio Jabuti (categoria Crônicas e Contos), o Prêmio São Paulo de Literatura e dois prêmios Machado de Assis, concedidos pela Fundação Biblioteca Nacional.

Livro: Sombra severa é o quarto título de Carrero, sendo publicado em 1986. Com ele, o autor venceu o Prêmio José Conde, concedido pelo Governo de Pernambuco. A nova edição pela Iluminuras traz orelha de Marcos Santarrita.

Tema e Enredo: Carrero escreve um tratado sobre a culpa, numa releitura do mito bíblico de Caim e Abel.

Forma: A narrativa é escrita de maneira direta, com alternâncias de pontos de vista e digressões, que são usadas para a contextualização do momento narrado.

CRÍTICA

Tratado sobre a culpa

Como católico devoto que é, Raimundo Carrero tem seguidamente usado os elementos de sua religião na hora de exercer sua escrita. Suas obras são recheadas de alusões à Bíblia, com referências a nomes bíblicos e reflexões sobre o processo de diluição da moral a partir da decadência da família e do enfraquecimento da igreja católica. Em Sombra Severa, que foi escrito em 1984 e é seu quatro livro publicado, Carrero vai além nessa aproximação com a religião, utilizando um dos episódios do Gênesis como a matéria-prima de sua criação. Aqui, a Bíblia deixa de ser um elemento secundário e ganha status de pilar estruturador do romance.

O ponto de partida de Carrero é o mito de Caim e Abel, marco da traição na história da humanidade. A assimilação do mito, porém, ocorre por meio de uma releitura que promove algumas mudanças. Ao invés de Caim, Carrero batiza o nome de um dos irmãos como Judas (outro traidor bíblico). E a história do carneiro, alvo da intriga entre Caim e Abel, até aparece, mas é substituída pela força da disputa pelo amor de Dina, numa junção a outra passagem do Gênesis. Sua presença é uma alusão à Diná, filha de Jacó, que após ser violentada, alimenta o ódio de seus irmãos contra seus opositores, em outro episódio de traição da Bíblia.

Em Sombra Severa, porém, a história acontece diferente. São os irmãos de Dina que exigem o seu casamento após a desonra e, em vez de serem os sujeitos da traição, são eles os traídos. Assim como Abel e a própria Dina, que veem seu amor interrompido pelo estupro sofrido por ela. Quem, no entanto, mais sofre nesse romance é Judas, corroído pela culpa de ter traído o irmão e desgraçado a vida de Dina. Ao mergulhar no remorso de Judas, a história de Carrero abandona a função religiosa de fábula para construir sua obra literária. O episódio bíblico, no caso, é usado como fonte para o autor encontrar os elementos que acabaram por se consolidar como características de sua obra, a exemplo do universo sombrio, da investigação do mal, das relações familiares conturbadas e da descrença no homem.

Homem de poucas expressões orais, Judas lembra o personagem Fabiano de Vidas Secas, por conta da aridez da fala como reflexo da aspereza da vida no campo. Em sua prisão particular de silêncio, lacrado no seu interior, Judas é obrigado pela honra do mundo rural a longas e duras sessões de ruminações, num processo que vai se alternando entre remorsos, lembranças afetivas com Abel, promessas aos pais, buscas por soluções para a vida e justificativas para o seu comportamento através de recordações de infância e até leituras místicas (em passagens que investem na lógica matemática e na leitura de símbolos de uma maneira tão elaborada que chegam ao leitor como fantasiosas demais, perdendo seu efeito de condenação). Assim, a narrativa se desenvolve basicamente no campo psicológico, apesar da existência de ações que funcionam para dar andamento ao enredo e servem como marcações de limiar para o andamento da história.

Mas, ao contrário das obras mais recentes de Carrero, a narrativa se mantém retilínea, com um ritmo de desenvolvimento do enredo. Mesmo o uso recorrente das digressões em Sombra Severa não compromete a evolução cronológica da narrativa. O passado aqui, bem como os fluxos de consciência, é evocado como uma maneira de contextualização do presente, do momento vivido pelo personagem. Diferente, por exemplo, do que ocorre na fase mais nova de Carrero, onde o discurso psicológico surge como uma maneira de questionar o que já foi dito, de confundir o leitor ao invés de localizá-lo.

Outra estratégia narrativa que Carrero tem como característica e já ensaia aqui é a alternância de perspectivas. Embora Judas assuma o papel de protagonista, a narrativa também é iluminada pelo olhar de Dina e de Abel, enriquecendo o mosaico sombrio de frustrações. Mais uma vez, a multiplicidade de vozes narrativas não apresenta o mesmo efeito que o das obras posteriores do autor. Em Sombra Severa as vozes de Abel e Dina aparecem para somar, dar ao leitor mais subsídios para o entendimento da história, enquanto que na fase mais atual a multiplicidade ocorre como uma maneira de reescrita, uma forma de desestabilizar toda e qualquer certeza sobre o enredo.

A diferença sobre os efeitos de um mesmo procedimento se dá por uma questão de filiação. Se ultimamente Carrero vem respondendo aos anseios de um mundo urbano e pós-moderno, em Sombra Severa a história está mais ligada ao gênero clássico da tragédia, ao mundo rural onde a culpa é sinônimo de honra e não motivo para a fuga da realidade pela loucura. Judas, desde o início do livro, ao ver Dina na garupa do cavalo de Abel, já pressente seu destino. Por mais que lute, a tragédia acontece. E ela se repete, e segue piorando, num crescente de sufocamento. Por mais que Judas use seus poderes de adivinho, por mais que consiga enxergar o futuro, ele não vê saída para a desonra que cometeu.

Lido em abril de 2014
Escrito em 09.05.2014


Relação com o autor: Próxima. Fui aluno da Oficina de Carrero e depois, como jornalista, nos mantivemos sempre em contato para entrevistas e matérias.

FICHA TÉCNICA

Sombra severa
Raimundo Carrero
Editora: Iluminuras
2ª edição, 2004
126 páginas

TRECHO

“E o que não podia suportar era a repelência que sentia agora. Algo mais forte e mais cruel do que ter maculado Dina. Repelia-a. Uma espécie de nojo, de lodo, criava-se no escuro do seu coração. A injustiça tríplice: para com ele, para com ela, para com Abel – ele, o irmão, que lutara para tê-la em casa. Repelia-a.” (p. 29)

EPÍLOGO

Bíblia: Além do mito de Caim e Abel, há outras referências bíblicas usadas por Carrero. Elas aparecem nos nomes dos personagens Judas, Abel e Dina, que na Bíblia é Diná, filha de Jacó que foi estuprada e que foi vingada por dois irmãos.

Rural: O livro faz parte da primeira fase da obra de Carrero, que tem como característica o cenário rural e uma estrutura narrativa mais tradicional, onde a preocupação do autor com o enredo se revela maior do que com a forma narrativa.

OUTRAS OPINIÕES

Carlos Graieb, na Revista Veja, em 29 de agosto de 2001

(http://veja.abril.com.br/290801/veja_recomenda.html)

Sombra Severa, do pernambucano Raimundo Carrero, é uma tentativa curiosa de prosseguir na via do regionalismo. Do ponto de vista estilístico, o autor é um adepto da contenção – e portanto inimigo das narrações pitorescas. O cenário é o mínimo necessário e a fala nordestina está reduzida a “sotaque” em seu livro, ou seja, a uma forma peculiar de montar certas frases e grafar certas palavras.”

LEIA TAMBÉM

Do mesmo autor

O amor não tem bons sentimentos – Raimundo Carrero

A minha alma é irmã de deus – Raimundo Carrero

Tangolomango – Raimundo Carrero

Livros relacionados

Desonra – J.M. Coetzee

Compartilhe

Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

Comente!