Sonhos de Bunker Hill – John Fante

0

Quando escrevi sobre Pergunte ao pó, comecei dizendo que se eu fosse organizado, minha prateleira de F (de Fante) estaria valorizada. Agora, ela ganhou mais um reforço: Sonhos de Bunker de Hill.

Este livro foi escrito um ano antes da morte de Fante, que não o escreveu, mas ditou à sua esposa por causa de complicações com a diabete que lhe deixou cego. Em Sonhos de Bunker Hill, Fante me pareceu mais maduro, bem resolvido, mais direto e objetivo.

Seu personagem é o mesmo Arturo Bandini de Pergunte ao pó, com os mesmos problemas, angústias e ingenuidade, só que desta vez, interagindo com outros personagens. Não há rastros de Camilla Lopez, Hellfrick ou Hackmuth. É como se eles não tivessem existido na vida Arturo Bandini. Não é uma continuação, mas uma outra história do mesmo personagem, sem qualquer referência às suas aventuras passadas em Pergunte ao pó.

Bandini é um jovem de 21 anos que largou sua cidadezinha do interior para se tornar um escritor em Los Angeles. Tem a maturidade de um adolescente de 14 anos, faz coisas descabidas, sem pensar na conseqüência, gasta seu escasso dinheiro em roupas e bebidas, finge ser alguém importante, chega ao ridículo freqüentemente. Porém, em matéria de sexo está mais maduro, mais confiante, livre, safado, sem escrúpulos religiosos, mas continua sofrendo com a falta de dinheiro, solidão e bloqueio criativo.

Trabalha como ajudante de garçom, tenta viver da arte, chega a ser contratado para trabalhar num estúdio de Hollywood, mas esbarra-se no conflito Arte X Mercado. Desta vez, Bandini cruza com gente como Gustave Du Mont, um revisor que não larga os gatos, Frank Edington, viciado em jogos de criança, Velda van der Zee, roteirista de Hollywood que adora falar da vida alheia, e o lutador de luta-livre Duque de Sardenha.

Com eles, Fante constrói bons momentos em Sonhos de Bunker Hill, utilizando-os para alfinetar Hollywood e a sociedade americana, criando situações que não parecem reais, aumentando ainda mais o estranhamento e inadequação de Bandini com o mundo em que vive.

Thiago Corrêa
lido em Out. de 2004
escrito em 11.12.2004

: : TRECHO : :
“Quando meu pai ficou sabendo que seu terceiro filho também era um menino, reagiu da mesma forma que quando meus irmãos vieram ao mundo: ficou bêbado por três dias. Minha mãe encontrou-o na sala dos fundos de um boteco na rua do nosso apartamento e arrastou-o para casa. Afora isso, meu pai prestou pouca atenção em mim.” (p. 66)

: : FICHA TÉCNICA : :
Sonhos de Bunker Hill
John Fante
Trad. Lúcia Brito
LP&M, 1a. edição
168 páginas

Compartilhe

Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

Comente!