STAR WARS – Marcas da Guerra (Livro 1), de Chuck Wendig

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PRÓLOGO

Autor: Chuck Wendig é escritor de romances, roteiros e designer de games. Publicou Blackbirds e a série Heartland, entre outros. É coautor do curta-metragem Pandemic e da narrativa digital Collapsus, indicada ao Emmy.

Livro: O romance de Wendig faz parte de uma série de publicações chamadas pela Disney de Jornada para Star Wars: o despertar da Força.

Tema e enredo: A trama principal aborda uma reunião secreta de altos oficiais do agonizante Império ocorrida em um inexpressivo planeta da Orla Exterior, Akiva. Correndo em paralelo com esta reunião, somos apresentados a um conjunto de personagens, alguns fazendo parte da Aliança Rebelde, outros não, que por um motivo ou outro vão tentar boicotar o encontro dos imperiais.

Forma: A estrutura do romance é intercalada pela história principal do conflito entre os imperiais e os seus opositores contada em capítulos de desenvolvimento linear, enquanto são enxertados, ao longo da leitura, capítulos-contos que se passam em diferentes planetas. Cada um desses contos, tenta criar uma história do cotidiano relativo aos meses seguintes à derrocada do Império.

CRÍTICA

CUIDADO: alguns spoilers adiante
por Cristhiano Aguiar

Não tenho dúvidas: a Força não está do lado do medíocre Marcas da Guerra, escrito por Chuck Wendig e recém-lançado aqui no Brasil pela Editora Aleph. O romance de Wendig faz parte de uma série de publicações chamadas pela Disney de Jornada para Star Wars: o despertar da Força. Como sabemos, o início da nova trilogia de Star Wars, que estreará nos cinemas em 18 de Dezembro, se passa 30 anos depois dos acontecimentos de O retorno de Jedi. Darth Vader e o Imperador Palpatine morreram; a Aliança Rebelde ganhou a batalha. O que, contudo, ocorreu na Galáxia nessas três décadas? A proposta de Jornada para Star Wars… consiste em saciar nossa curiosidade.

Durante muitos anos, nós fãs de Star Wars achávamos que essa pergunta tinha sido respondida através do Universo Expandido (EU), um conjunto de narrativas que desde os meados dos anos 80 expande o mundo de Star Wars mediante diferentes linguagens narrativas, tais como games, quadrinhos, desenhos animados, romances, etc. Como bem sabemos, após a compra da marca Star Wars pela Disney, todo o EU foi apagado do mapa e considerado não canônico. Ao contrário de muitos fãs das antigas, não me incomodo tanto com isso, porque os anos me ensinaram o quanto George Lucas e suas empresas nunca levaram tão a sério o EU quanto nós acreditávamos… Nunca deixei de desconfiar o quanto as histórias contadas ali sempre foram consideradas uma espécie de Star Wars de segundo escalão, até porque parte considerável do EU era ruim mesmo. Meu mau humor com o romance de Wendig não passa por esse problema. Na verdade, ao gentilmente receber o livro da editora Aleph, não pude conter minha curiosidade, porque o universo que tanto amo ia receber um bem-vindo sopro de renovação. Ainda vou escrever algumas coisas sobre os lados legais e chatos da cultura Nerd, mas um desses aspectos a serem questionados é a preocupação com o “canônico”, ou com a coerência das diversas narrativas articuladas dentro dos universos amados por nós. No fim do dia, uma boa história sempre será uma boa história, independente do fato de se encaixar ou não no Grande Plano da Saga, do Mundo, da Franquia.

Meu problema com Star Wars: Marcas da Guerra é bem mais simples. O romance é simplesmente literatura muito, mas muito ruim. O fato dessa resenha ser publicada aqui na Vacatussa, e não em um site geekcêntrico, pode levar os leitores a pensar o quanto devo ser um daqueles críticos “literários” que não esperam uma oportunidade para rebaixar qualquer coisa da cultura pop. Garanto que não é o caso. Tenho total consciência de que não posso exigir de nenhum livro de Star Wars aquilo que pediria da prosa de Mia Couto, Guimarães Rosa, ou Philip Roth. Mesmo em seus melhores momentos, penso nos romances e quadrinhos recentes de Star Wars escritos pelos bons James Luceno, John Jackson Miller e pelo veterano dos quadrinhos John Ostrander (sem esquecer o clássico Timoty Zahn), o escopo dessas obras é bem modesto e, por isso mesmo, digno: providenciar ao leitor algumas honestas horas de diversão e escapismo. Assim, falta ao texto de Wendig aquilo que não pode faltar em nenhuma narrativa, por mais “erudita”, aliás, que ela pretenda ser: o prazer da leitura, que reside em uma escrita carregada de experiências significativas para o leitor. No meu caso, Star Wars: Marcas da Guerra falhou nesse aspecto e gostaria de explicar por quê.

Há, em primeiro lugar, uma frustração que, a bem da verdade, não tem muito a ver com o romance em si. Assim como muitos outros leitores, minhas expectativas eram a de que muitas contextualizações fossem dadas por Star Wars: Marcas da Guerra a respeito do que acontece na Galáxia após a Batalha de Endor. O escopo do romance, entretanto, é bem reduzido. A trama principal aborda uma reunião secreta de altos oficiais do agonizante Império ocorrida em um inexpressivo planeta da Orla Exterior, Akiva. Correndo em paralelo com esta reunião, somos apresentados a um conjunto de personagens, alguns fazendo parte da Aliança Rebelde, outros não, que por um motivo ou outro vão tentar boicotar o encontro dos imperiais. Portanto, se você procura saciar sua curiosidade sobre o que está acontecendo logo após o Episódio VI, a frustração será inevitável. Wendig  e seus editores, em uma jogada comercial que julgo equivocada, nos dão vislumbres muito breves do que está acontecendo, provavelmente porque querem garantir que os leitores comprarão os outros produtos de Star Wars, nos quais outras informações certamente serão espalhadas.

E aqui começam os problemas, porque para além da sensação de “respirar o universo Star Wars”, Star Wars: Marcas da Guerra oferece muito pouco. Primeiro, a estrutura do romance é mal balanceada. A ideia é boa, na verdade: temos a história principal do conflito entre os imperiais e os seus opositores contada em capítulos de desenvolvimento linear, enquanto são enxertados, ao longo da leitura, capítulos-contos que se passam em diferentes planetas. Cada um desses contos, mais interessantes do que a história principal, tenta criar uma história do cotidiano relativo aos meses seguintes à derrocada do Império. A escrita de Wendig melhora aqui, mas não é o suficiente para salvar a obra. O problema é que os capítulos-contos são frequentes demais e totalmente desconexos da narrativa principal, que em si já é frouxa; o resultado final dos episódios, embora na maioria dos casos interessante, acaba por atravancar o ritmo da leitura.

O planeta Akiva, além disso, é o segundo problema. Ele é apenas um pano de fundo anódino, sendo tudo nele carente de personalidade. Em obras de Fantasia ou nesse tipo de Ficção Científica, mais aventuresca, os espaços narrativos são importantíssimos, porque nós leitores queremos justamente desbravar, com nossos personagens, mundos novos e instigantes. Não é o caso de Star Wars: Marcas da Guerra. Akiva não me causou nenhuma impressão duradoura. Mais importante, o planeta não ficou na minha mente enquanto imagem marcante, como é o caso de Tatooine, Coruscant, Naboo ou Dagobah. Cada um dos planetas citados, aliás, é uma alegoria importante de certas tramas e/ou personagens do universo Star Wars. Akiva, por outro lado, não significa nada para além de ser um planeta distante e pouco expressivo. Qual foi o nível de opressão do Império sobre os seus habitantes? O quanto o sátrapa de Akiva era odiado pelos seus? Nada disso é definido de modo satisfatório. E quando, perto do final, ocorre uma revolução popular no planeta, não consegui me importar muito com tudo aquilo.

O mesmo pode ser dito sobre os personagens. Alguns deles vieram dos filmes, como Han Solo, Chewie ou Wedge Antilles, mas a esses é relegado um papel coadjuvante. Tudo bem, se os novos fossem dignos de nota, mas o que vemos é uma sucessão de seres desinteressantes, sem o carisma típico de Star Wars. Há alguns, aliás, vergonhosos, como é o caso do irritante adolescente Temmin e do seu ridículo robô Mr. Bones. Outros apresentam potencial, como a piloto Rebelde Norra, cheia de culpa por ter abandonado seu filho Temmin (ele é um mala, Norra, não se cobre tanto!) para lutar a favor da causa Rebelde, ou o ex-imperial Sinjir, perdido no alcoolismo e no cinismo. No entanto, falta a esses personagens uma maior exploração da sua vida interior para que esses dramas pudessem se tornar mais críveis. Sinjir, em especial, parece um ator canastrão de seriados americanos dos anos 90 e sua trajetória ao longo do livro carece de maior desenvolvimento. O mesmo pode ser dito de todos os personagens. Assim, Star Wars: Marcas da Guerra falha onde não poderia, pois perdoamos as falhas de muitas narrativas, desde que seus personagens ao menos nos interessem. Inúmeros seriados de televisão sobrevivem dessa maneira; de certa forma, foi o próprio Star Wars quem ensinou aos narradores de aventura, fantasia e ficção científica essa preciosa lição.

O terceiro problema é o estilo deficiente de Wendig. Os diálogos são risíveis, como o que se segue: “- Não, quero dizer… Não curto… isso./ -Isso? Alienígenas?/ – Mulheres. / -Oh.Oh. / – Sim, oh. / – Oh.”. Além dos diálogos, o autor insiste em, ao longo de 400 páginas, usar do começo ao fim, quem sabe procurando simular alguma escrita mais elaborada, uma quantidade excessiva de símiles, a maioria deles supostamente poéticos. Há também um abuso de coincidências e situações inverossímeis, como é o caso do momento no qual Temmin é jogado de um telhado por Stormtroopers e milagrosamente sobrevive porque uma multidão lá embaixo teria amortecido sua queda. Wendig também exagera em simular a morte de seus personagens, apenas para logo em seguida revelar que eles sobreviveram à situação perigosa.

Justiça seja feita, contudo, ao fato de que Chuck Wendig descreve boas cenas de ação. Há também aquele ritmo intenso, frenético, dos bons escritores de livros de aventura e best-sellers em geral, embora apenas talento para ação não sustente 400 páginas. De igual maneira é digno de elogio no romance a diversidade racial e sexual dos seus personagens. Também é interessante presenciar a angústia dos imperiais e conhecer um pouco mais de como funcionava o Império Galáctico… E é só. Se a Disney tem acertado com os novos quadrinhos publicados pela Marvel, com seu novo e ótimo desenho Star Wars Rebels e com romances como Um novo amanhecer, de John Jackson Miller, espero que os próximos produtos de Jornada para Star Wars: o despertar da Força sejam melhores. O que inclui, claro, o novo filme, cujo sucesso pode garantir ainda muitas boas histórias em uma galáxia muito, muito distante.

 

Lido em novembro de 2015
Escrito em 28.11.2015

FICHA TÉCNICA

Marcas da Guerra
Chuck Wendig
Aleph
1a. edição 2015
403 p.

TRECHO

“As paredes estão marcadas com pichações (com uma marcação de um estêncil do familiar capacete de um lorde Sith e uma frase sob ele: VADER VIVE). Escombros e ruínas se espalham por todos os lugares. Não é muito diferente do lado de fora, com cortiços empilhando-se uns sobre os outros. Alguns lugares são míseros contêineres. Outros são cascos de naves espaciais em ruínas, equilibrando-se precariamente uns contra os outros ou em cima deles. A poluição está em toda parte, amarela como escória sobre água suja”.

OUTRAS OPINIÕES

Rodrigo F.S. Souza, no Nerd Feelings, em 20 de novembro de 2015

(http://nerdgeekfeelings.com/2015/11/20/livro-star-wars-marcas-da-guerra-de-chuck-wendig-resenha/)

Marcas da Guerra é uma história muito envolvente, dinâmica e empolgante quando o leitor ambienta-se com seu universo e personagens, conforme relatei acima. E, por todos os motivos já listados, é um livro indispensável para os fãs desde universo em constante expansão.”

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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