Suicídios exemplares – Enrique Vila-Matas

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Beleza em torno da morte

Na cultura Ocidental, o suicídio é visto como um assunto proibido, um pecado na religião católica, capaz de despertar vergonhas, dores e incompreensão entre os que sofrem a perda. Com olhar atento para comportamentos estranhos à sociedade, o espanhol Enrique Vila-Matas teve sensibilidade para enxergar esse tabu através de uma perspectiva artística em Suicídios exemplares, livro de contos escrito em 1991 e só agora publicado no Brasil pela Cosac Naify.

Nele, Vila-Matas já demonstra seu interesse por características que, dez anos depois, serviriam de alicerce para Bartleby e companhia (2001), como o gosto pela narrativa fantasiosa, a metalinguagem e uma certa tendência para catalogar comportamentos estranhos, misturando ficção com realidade. Em Suicidios exemplares essa relação com o real ainda é discreta, aparecendo apenas com o trecho de uma carta do poeta português Mário de Sá Carneiro a Fernando Pessoa, que consiste no último conto Mas não façamos literatura.

A diferença, contudo, está na maneira como as histórias foram dispostas no catálogo. Se em Bartleby e companhia uma personagem assume o papel de Vila-Matas como organizador dos causos, a ligação dos contos de Suicídios exemplares se dá apenas pelo tema da morte. Nas 11 histórias presentes na edição, Vila-Matas deixa de lado a culpa religiosa e o sensacionalismo que envolve o suicício para abordá-lo sob a ótica das pessoas que resolveram deixar de viver antes da hora imposta pela natureza.

Uma escolha que dá ao escritor espanhol a possibilidade de criar personagens bastante humanos, cujos dramas pessoais revelam a delicadeza existente na angústia das despedidas. Apesar do tema sombrio, as histórias se mostram leves nas mãos de Vila-Matas, que as suaviza por meio do pitoresco e do humor irônico. Nos contos Em busca do parceiro eletrizante e Pedem que eu diga quem eu sou, o autor explora o misticismo e os costumes bizarros de povos desconhecidos.

Embora curiosos, o talento do espanhol aflora mesmo nos momentos mais delicados, quando o humor soaria como piada de mau gosto. Diante desse dilema, Vila-Matas mostra maturidade narrativa ao optar por uma linguagem mais elegante para dialogar com os sentimentos das personagens. Um recurso que lapida as sensações da alma humana para traduzi-la em beleza, por meio da escolha das palavras.

A sutileza do autor se evidencia, por exemplo, na forma como ele encontra para narrar a depressão da protagonista em Rosa Schwazer volta à vida, na dosagem equilibrada de ação com riqueza descritiva da perseguição de A hora dos cansados e na melancolia do narrador de A noite da íris negra. Mesmo nesse último conto – que é ambientado no cemitério e fala sobre um grupo de amigos suicidas semelhante ao de O clube dos anjos de Luis Fernando Verissimo – a preocupação de Vila-Matas parece ir além da morte.

O suicídio é apenas um ponto de partida agregador das histórias, um fio condutor que se desenrola em nostalgia, amor e diversão. Uma situação limite usada para revelar a loucura humana, exposta por olhares diferenciados como o do pintor de Pedem que eu diga quem eu sou (que decide sumir após se deparar com os equívocos de sua obra) e do escritor do belo conto A arte de desaparecer, diante do dilema de publicar sua obra. Após a leitura de Suicídios exemplares, o que fica não é a relação das personagens com a morte, mas em como o fim da existência é necessária para a vida.

Thiago Corrêa
lido em Jun. de 2009
escrito em 24.06.2009

: : TRECHO : :
“Com um único e fulminante gole ingere o veneno, e quase de imediato o tambor a envolve com a mais calorosa sensualidade, ainda que também com alguma brutalidade, porque tem a sensação de que caiu morta. Tal foi o impacto, a força da rápida descida do líquido no estômago. Mortalmente tonta, dá uma forte cabeçada para a frente e, quando está a ponto de cair, sente que entrou no quadro e que avança por um estranho corredor de uma cor cinza-chumbo, que a conduz a uma esplanada de forte colorido na qual se estende um altar precedido por vários degraus, cobertos por um tapete de verde muito intenso, nunca visto por ela antes.” (p. 71, conto: Rosa Schwarzer volta à vida).

: : FICHA TÉCNICA : :
Suicídios exemplares
Enrique Vila-Matas
Cosac Naify
1a. edição, 2009
208 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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