Tangolomango – Raimundo Carrero

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PRÓLOGO

Autor: Raimundo Carrero (Salgueiro-PE, 1947). Recebeu o Prêmio APCA, o Prêmio Jabuti (categoria Crônicas e Contos), o Prêmio São Paulo de Literatura e dois prêmios Machado de Assis, concedidos pela Fundação Biblioteca Nacional.

Livro: Publicado em abril de 2013, Tangolomango é o segundo volume do tríptico Comigo a natureza enlouqueceu composto por Seria uma sombria noite secreta (2011) e o ainda inédito Lamalagata – O caminho da águia no ar.

Tema e Enredo: A narrativa acompanha as andanças da personagem Tia Guilhermina pelas ruas do Recife durante o desfile do Galo da Madrugada.

 Forma: O romance retoma a técnica narrativa que Carrero chama de cubismo literário, onde ele investiga as dimensões da memória. Assim, relatos do presente e frevos se misturam a impressões, lembranças e invenções de Tia Guilhermina.

CRÍTICA

Estilhaços de um carnaval de Tia Guilhermina

Na música existe uma tese decorrente de uma variação daquele ditado que diz que a gente só conhece uma pessoa quando ela passa a ter poder. Do mesmo jeito, um artista só revela suas verdadeiras intenções depois de ter um sucesso de público e crítica. É nesse momento de ápice, na visibilidade da linha do tiro, que os artistas se veem diante de uma bifurcação em suas carreiras, exigindo uma decisão sobre o rumo que eles pretendem seguir – aceitar os ventos do mercado ou usar as regalias do crédito obtido para mergulhar na pesquisa de uma expressão própria.

Mudando um pouco de foco, a mesma teoria pode ser aplicada à literatura quando analisamos o caso do escritor pernambucano Raimundo Carrero. Assim que ganhou o Prêmio Jabuti, com o livro de contos As sombrias ruínas da alma, em 2000; Carrero se viu no impasse de ser a mira sob os holofotes. Ao invés de aproveitar o bônus para se inserir no filão comercial, preferiu partir para o experimentalismo, assumindo de vez o lado técnico que já vinha lhe rendendo fama nas suas oficinas de criação.

De lá para cá, Carrero publicou um conjunto de cinco livros que se sobressaem menos pelo enredo do que pela técnica, que ele próprio chama de cubismo literário. Ou seja, trata-se de um mergulho no interior do narrador, onde ele retorce o tempo da narrativa e explora as dimensões da memória, relatando e recriando fatos que marcaram seus personagens. Daí surgiram os romances Ao redor do escorpião… uma tarântula? (2003), O amor não tem bons sentimentos (2007), A minha alma é irmã de deus (2009) e Seria uma sombria noite secreta (2011), que abre o tríptico Comigo a natureza enlouqueceu. A sequência desse tríptico é Tangolomango – ritual das paixões deste mundo, publicado no fim de abril deste 2013.

Ornamentado com uma bela capa elaborada pela designer pernambucana Hallina Beltrão, o romance revisita a personagem Tia Guilhermina, que já aparecia como coadjuvante em O amor não tem bons sentimentos. Lá, ela fora apresentada como uma senhora solitária e ainda virgem, com sonhos de ser cantora de cabaré, e entrou na história por ser responsável pela criação do sobrinho Matheus, numa relação com banhos conjuntos na banheira e desejos reprimidos. Em Tangolomango, Tia Guilhermina aparece num momento posterior, já separada do sobrinho, com Matheus indo a julgamento, acusado de estuprar e assassinar a mãe Dolores e a irmã Biba.

Na solidão da Casa Verde, no bairro da Torre, Tia Guilhermina oferece um terreno fértil para que Carrero desenvolva sua técnica, já evidenciada pela escolha como epígrafe da reflexão de Mario Vargas Llosa: “o que nos narra chega filtrado, diluído, sutilizado pela sensibilidade daqueles seres, jamais diretamente”. Por esse fio condutor frágil que é Tia Guilhermina, cheio de remorsos e vontades reprimidas, a narrativa avança aos engasgos, numa alternância temporal que justapõe passado e presente, fatos, ilusões e lembranças. Nesse mosaico de textos curtos, o leitor é exigido a juntar os cacos de um quadro estilhaçado pela mente confusa de Tia Guilhermina. Perdida entre abismos da memória, ela capta imagens enquanto atravessa o desfile do Galo Madrugada, registrando nuances do carnaval do Recife, com referências a frevos, bailes de clubes, blocos (do I Love Cafusú ao Bloco da Saudade), caboclinhos e maracatus, a decadência do centro da capital pernambucana, a malícia irônica das fantasias, o transe sexual coletivo e a solidão, ainda mais sufocante.

O resultado, porém, não é dos melhores. Depois de quatro livros, o cubismo literário de Carrero apresenta sinais de cansaço, revela seus limites. Se em O amor não tem bons sentimentos e em A minha alma é irmã de deus, o recurso aparecia como um diferencial, explorado não só como um fator estético, mas narrativo, responsável por aprofundar o estado mental dos personagens, num processo enfrentamento de traumas; em Tangolomango ele me parece apenas um exercício de linguagem, um malabarismo que entra no mérito da técnica pela técnica, diluindo a força da personagem, enfraquecendo o discurso em espasmos e relegando o enredo a um pano de fundo.

A técnica é uma ferramenta e, como qualquer ferramenta, ela deve ser usada com um objetivo, buscando o casamento entre técnica e enredo, com ela aparecendo na tentativa de potencializar o efeito daquilo que é dito. Não é o que acontece em Tangolomango. O cubismo literário descamba para um excesso de desvios que dispersa a leitura, abre trilhas que não complementam o eixo principal da narrativa nem dão outras dimensões ao tema. E como o próprio Carrero aconselha seus alunos, logo na apresentação do livro A preparação do escritor (2009): “É preciso nunca esquecer o ensinamento de Tchecov: se o narrador coloca uma corda na parede, ela tem que ter uma função, nem que seja para enforcar o narrador.” (p. 13).

Dessa perspectiva, passagens curiosas como as do bloco do Cachorro do Homem do Miúdo perdem importância, tornam-se apenas trechos isolados, becos sem saídas, fazendo do livro um amontoado de boas ideias que não evoluem e nem dialogam entre si. Como efeito, essa sucessão de desvios de Tangolomango compromete o todo, impede a construção de um raciocínio mais profundo do autor, que aqui parece sofrer do mesmo mal de Funes, o memorioso, conto em que Jorge Luis Borges defende que o ato de pensar “é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair.”

Da mesma forma, o emaranhado de fios que compõe Tangolomango desvirtua a visão de que a narrativa é uma proposta de organização do mundo, com o encadeamento de alguns de fatos e a exclusão de outros, afugentando a relação de causa e efeito. Assim, cenas importantes (a exemplo do strip-tease no Trianon e do estupro) que deveriam funcionar como clímax do livro, são minimizadas durante a leitura como apenas outros bons fragmentos. E o romance que – pelas pistas deixadas por Carrero aqui e ali – apontava para uma releitura do autor sobre o carnaval, prometendo desconstruir a ideia de felicidade coletiva através da alma melancólica e solitária de Tia Guilhermina, nos faz lamentar por tudo aquilo que poderia ter sido Tangolomango.

Lido em Abril de 2013
Escrito em 20.05.2013


Relação com o autor: Próxima. Fui aluno da Oficina de Carrero e depois, como jornalista, nos mantivemos sempre em contato para entrevistas e matérias.

FICHA TÉCNICA

Tangolomango: ritual das paixões deste mundo
Raimundo Carrero
Record
1ª edição, 2013
127 páginas

TRECHO

“Bastou a festa e o sexo inteiro aflorava em todos que brincavam o Carnaval. Não é difícil perceber casais abraçados, já aos primeiros beijos libertinos, esfregões e apalpadelas, mãos que arrancavam bustiês, calcinhas descendo perna abaixo, e aquela vontade quase incontrolável de estar ali também. Atenta mais ao ouvido da memória para ouvir Matheus. E com ciúme, um incrível ciúme, sobretudo quando ele repetia, a boca cheia de desejo, as palavras saborosas, peitos e o acarinhado peitinho, cheio de prazer e luxúria, peitos e peitões, peitinhos, saltando nus, bundas, bundinhas e bundões tremelicando.”, (p. 68)

EPÍLOGO

AVC: Tangolomango foi o primeiro livro escrito por Carrero após ter sofrido o Acidente Vascular Cerebral (AVC), em 2010.

Tia Guilhermina: A personagem Tia Guilhermina surgiu no romance O amor não tem bons sentimentos (2007).

Guilherme Tell: Segundo Carrero, o nome de Tia Guilhermina é inspirado na lenda do herói Guilherme Tell, por conta do seu espírito aventureiro e da sua postura protetora com a família.

Tríptico: Comigo a natureza enlouqueceu, nome que batiza o tríptico, foi cogitado por Carrero para ser o título de Ao redor do escorpião… uma tarântula?

 Frevos: Ao longo da narrativa são citados diversos frevos e marchinhas famosas, como Voltei, Recife; Evocação No 1; Evocação No 3; Moça véia; Máscara Negra e Andorinha.

Dubiedade: A dubiedade em que a personagem Tia Guilhermina se equilibra – entre o desejo e a culpa, a luxúria e a inocência – funciona como metáfora para a falência de instituições como a religião e a família.

Recife: Carrero descortina segredos da capital pernambucana, revelando sinais de decadência econômica, violência e intolerância.

Carnaval: Carrero descreve o Carnaval como um mosaico que combina solidão e melancolia com loucura e selvageria.

Capa: Bonita capa elaborada pela designer pernambucana Hallina Beltrão.

Linguagem: A escassez de fatos na narrativa faz com que a técnica se sobressaia ao enredo, reduzindo o livro a uma mera experiência de linguagem.

Fuga: A quebra a sequência da narrativa com a inserção de passagens que fogem e pouco acrescentam ao eixo principal da história, a exemplo da sequência do bloco do Cachorro do Homem do Miúdo.

Revisão: A revisão merecia ser mais cuidadosa. Deixou passar erros grosseiros como a indicação de que o desfile do Galo Madrugada acontece no domingo e não no sábado de Zé Pereira.

OUTRAS OPINIÕES

Schneider Carpeggiani, no blog da Revista Continente, 7 de março de 2013.

(http://www.revistacontinente.com.br/index.php/component/content/article/48-literatura/7948-em-nome-do-pai-do-filho-e-de-todas-as-aparicoes-santas.html)

Tangolomango é também sobre um Recife póstumo. Não é um Recife de paisagens, de fotos com filtros de Instagram ou de nostalgia. É um Recife-zumbi, que sobrevive com seus blocos de carnaval cansados com seus estandartes no ar, com frevos tristes, que falam da saudade de um tempo que não mais existe, que talvez jamais tenha existido em época alguma e que por isso mesmo persiste.”

Luís Augusto Fischer, no jornal Folha de S. Paulo, em 27 de abril de 2013.

(http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/04/1269471-critica-em-capitulos-curtos-e-poeticos-raimundo-carrero-flagra-flashes-da-alma.shtml)

“um narrador onisciente descreve, com grande gosto, cenas da rua e flashes da alma, tudo de mistura, num andamento bastante sugestivo. O resultado geral não alcança excelência, para este leitor aqui. Em parte porque há algo de instável e de frágil no nexo entre o enredo e a narração: os fatos (tia que deseja sexualmente o sobrinho, matricídio etc.) vão na linha da tragédia, mas o tratamento dado a eles pela narração os encaminha para o drama burguês. Em outra parte, talvez mais grave, porque tudo existe numa dependência muito cerrada da visão do narrador, que está por tudo, não apenas como o filtro que sempre é, mas como um pensador, uma espécie de comentador de tudo, e que termina por nos dar pouco da força interna da personagem, e muito de sua visão sobre tudo.”

Adriana Dória Matos, na Revista Continente, em maio de 2013.

“O que torna o romance uma leitura instigante não é tanto o seu enredo, mas a sua cadência. As alternâncias entre euforia e depressão da personagem são regidas pela música, neste caso, pelas músicas carnavalescas que cadenciam as marcações do texto.”

Cristiano Ramos, no blog de Cristiano Ramos, em 1 de maio de 2013.

(http://blogdecristiano.com.br/blog/?p=659).

“se por um lado ele testemunha impressionante transcendência física e emocional, por outro o livro resulta em exercício narrativo frágil, repleto de deslizes. Enquanto superação humana, voo além; como literatura, um passo em falso.”

José Castello, no jornal Gazeta do Povo, em 5 de maio de 2013.

(http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/conteudo.phtml?id=1369405&tit=Almas-brancas)

“Assim é a escrita de Raimundo Carrero: uma escrita viva que, mais que “fazer estilo”, mais até do que “contar boas histórias” – como hoje está tão em moda –, agarra-se ao mundo e, em uma luta selvagem, tenta arrastá-lo para o interior do livro. Uma literatura viva, ardente, que queima as mãos do leitor. Que o acorda.”

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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