Árvore de Maravilha | Transporte

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Transporte
Aline Arroxelas

O elevador foi subindo e aos poucos eu fui acreditando. Aquela gaiola cinzenta tinha que me levar ao último andar, porque só então eu estaria em casa, confortável, tranqüila.

Mas eu sempre achava que o elevador não pararia. Não sei bem precisar por que, mas descia-me, diariamente, uma impressão generalizada de que ele se exasperaria e não pararia, continuaria subindo sempre, ao alto, para além do último andar, para além de minha casa, para além do prédio, às alturas, para além de mim. O elevador seria uma bala num corredor vertical, impulsão por alguma força contínua e irresistível. Um belo dia isso iria acontecer, devia estar escrito, profetizado.

Só que eu, ah, eu não me renderia. A relação continente/conteúdo não podia ser assim tão inexorável. Os barulhos metálicos que eu ouvia durante a viagem deviam ser o embate, a tensão entre minhas cordas e a vontade louca do elevador de seguir subindo. Cabos arrebentassem, polias se alargassem, motores fumegassem; eu o amarrava ao seu propósito, à minha segurança, porque era imperativo — absolutamente imperativo — que eu chegasse, e logo, ao último andar; Meu marido me esperava, e junto com ele toda a vida que eu, cuidadosamente, mantinha sob o mais confiável dos mecanismos: a rotina.

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