As três Marias

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Quanto entrei na aeronave, aquela senhora me chamou atenção. Os olhos pequenos, a pele morena e enrugada, os cabelos longos e cinzentos. Sentada ao seu lado, uma adolescente segurava, com força, as suas mãos. A idosa tinha um olhar perigosamente alheio; a garota parecia sentir medo. “Também tenho medo de decolagens”, pensei. Não poderia estar mais equivocado. A menina – sua bisneta? – não partilhava comigo o receio de voar.

Nosso voo decolava do Recife em direção à cidade de São Paulo, onde moro. Eu tinha ministrado um curso sobre literatura contemporânea e participado do lançamento de dois contos meus, publicados de forma independente. Me sentia cansado da maratona de atividades dos últimos dias e por isso adormeci logo após a decolagem, o que é muito difícil de acontecer comigo. Sobre meu sono, adoraria, antes que os fios se entrelacem de vez, fornecer a vocês uma espécie de sonho profético com imagens cheias de significados ocultos. Pelo contrário, meu sono era uma escuridão espessa, cujas estruturas foram abaladas por um ritmo nervoso: pés batendo no chão, luzes se acendendo e uma voz solicitando a apresentação voluntária de um médico.

Sim, a idosa do primeiro parágrafo estava sofrendo um ataque cardíaco. Agora, enquanto escrevo, minha memória – com alguma crueldade? – insiste em apresentar diante dos meus olhos uma cena com ares melodramáticos. Enquanto o Escritor Contemporâneo acordava, braços teriam se debatido e da boca da paciente muita espuma vazaria; a velha e sua jovem acompanhante, suspensas no céu a milhares de quilômetros do solo, teriam lutado com determinação dolorosa contra a morte. A verdade é que nada enxerguei a não ser pessoas aglomeradas na primeira fileira, onde ambas estavam sentadas. Os corpos aglomerados, além disso, abafaram as próprias vozes. Por causa do incidente, tivemos que desviar nossa rota e aterrisar no aeroporto de Salvador. Ao aterrisarmos, pensei, inexplicavelmente: “Ainda bem que estou com os pés firmes no chão”. Poucos minutos depois, a tripulação nos confirmou o óbito.

Três meses se passaram e aconteceu de novo: retornando da região nordeste em direção a São Paulo, uma segunda idosa passou mal no voo no qual eu viajava e por isso descemos novamente em Salvador. O incidente ocorreu às seis horas da manhã. Poucos minutos após a aterrisagem, uma equipe médica subiu a bordo com um ar de admirável determinação profissional. Por um instante, pensei sermos todos figurantes de algum seriado americano (e na equipe médica certamente estaria ocorrendo um tórrido triângulo amoroso, meu coração melodramático especulou); depois, surgiram na minha mente imagens de documentários sobre o mundo natural, aquelas nos quais vemos pequenos animais em estado de prontidão, investigando, com focinhos, olhos e ouvidos bem tensos, as redondezas. A paciente era uma senhora branca e loira, por volta dos 60 anos, que saiu do avião em um passo cambaleante. Recordo menos o seu rosto e mais a veia artificial, de plástico, que se projetava de um dos seus braços e se conectava a um recipiente cheio de soro.

Ora, a Bíblia, as tragédias gregas e Star Wars me ensinaram que nada de relevante existe se não se repetir ao menos três vezes, portanto não se surpreendam: duas semanas depois, voltava mais uma vez de uma viagem de trabalho e uma terceira senhora passou mal. Salvador, contudo, não se repetiu, porque o caso felizmente não parecia grave e seguimos com o voo até São Paulo. Enquanto pegava minha mala na esteira do aeroporto, relembrei da força que percebi na mão da jovem do primeiro incidente e pensei no frágil equilíbrio que seus dedos tentaram manter. No táxi, continuei lembrando não do último incidente, mas sim do primeiro. A falecida me surgia aos fragmentos: os cabelos soltos sobre os ombros; os pés, que nunca verei, imóveis; os olhos entreabertos.

A primeira pessoa para quem contei tudo isso foi um amigo que se dedica ao ensino da literatura e à crítica literária. “Se fosse um conto seu”, confessou, “perderia pontos comigo”. E, ao dizer isso, tentou disfarçar aquele típico olhar desconfiado que a Não Ficção nos lança de vez em quando. Nos dias seguintes, senti uma forte necessidade de continuar contando e recontando essa história (nesse sentido temo que envolvi vocês no ponto de chegada, o texto escrito, de uma glosa coletiva). Ao me ouvirem, amigos e parentes, por exemplo, puseram ciência e destino lado a lado; brincou-se que eu sofria de algum tipo de maldição; foi usada a palavra “mensagem”; especulou-se o quanto as companhias aéreas escondiam dados sobre a relação entre condições atmosféricas dentro dos voos e riscos envolvendo determinados tipos de doenças. Cada vez que eu narrava, éramos ao fim do relato tomados por uma sutil sensação de alívio, semelhante a quando conseguimos entrar dentro de um elevador cujas portas quase se fecharam na nossa cara. Todos que me ouviram precisaram doar um significado às três senhoras. As imagens espectrais delas pairavam acima de mim e dos meus ouvintes, exigindo um tributo composto de coerência, finalidade e sentido. No fim das contas, quando as coincidências ocorrem conosco, nunca procuro nelas o recado das divindades, ou do destino. Nem tento explicá-las de outro modo. Meu método consiste em abraçá-las sem resquício algum de esperança. No caso específico das três senhoras, da semelhante luta travada por elas, o que sei é isto: um dia também caberá a cada um de nós o papel de sermos os protagonistas do espanto que, naqueles voos, a todos acometeu.

Texto inédito em português, originalmente publicado no site da Granta.com sobre o tema “Coincidences”

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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