Um homem sério

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Num de seus ensaios: De como julgar a morte, Montaigne nos adverte sobre nossa tolice, arrogância ou ilusão com que encaramos nossa morte, algo como se “tudo sofresse, de algum modo com o nosso desaparecimento.” De fato, não é possível encarar o fim, o nosso em particular, senão com perplexidade, mas isso não quer dizer que o que experimentamos possa ser alguma coisa diferente de ilusão. A mais pura e simples.

Rejeitamos a hipótese de Sísifo, e em tudo o que fazemos tratamos o mais convictamente possível de pôr ordem e significado. Se excetuarmos a natureza tudo o mais é o resultado desse esforço. A obra que construímos – família, sociedade, democracia, religião etc – é o que nos mantém centrados, estamos no caminho certo, diz o homem sisudo, para tudo há um propósito, repete para si mesmo o homem sério em sua oração matinal, e assim salmodiando convencemos a nós mesmos de que somos especiais, talvez até filhos de deus, quiçá feitos à sua imagem e semelhança.

Desse modo encontramos respostas para tudo, até para as desgraças nas quais nos flagramos vítimas; nossos infortúnios não são obra do acaso, são provações. Nesses momentos encontramos consolo no inconsolável Jó, somos seu irmão, desfrutamos o privilégio da preferência de deus. É como entendemos a vida se queremos emprestar-lhe sentido, e isso nos basta, mais que isso: nos fortalece, nos faz sentir especiais – alguns judeus desacreditaram de deus depois do holocausto, outros passaram a se sentir especiais, o mesmo ocorre com os argentinos depois que amargaram as ditaduras – o sofrimento nos eleva porque nele há um propósito divino.

Somos eternos. Cada ato ou pensamento dos quais somos ator e autor é aquilo que mais interessa ao responsável pelos buracos negros no espaço infinito.

Mas num dado momento, provocado por uma coisa ou outra, num sonho ou delírio, sentimos que cai a ficha e tudo ao nosso redor, tudo o que o homem construiu e se orgulha; a ordem a qual nos julgávamos pertencer, tudo não passa da obra de um sátiro e nossa verdadeira herança é o malogro. Foi essa a sensação que experimentei na última cena do filme: Um homem sério, dos irmãos Coen.

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[author_info]Nivaldo Tenório publicou A Grande Torre (2002) e Dias de febre na cabeça, pela u-Carbureto, com segunda edição pela Confraria do Vento, a ser lançada este ano.

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