Um piano no domingo

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Sempre fico sentimental no mês de maio, mas apesar disso tenho certeza de que ouvi o som de um piano na manhã do último domingo. Sentado na escrivaninha, fazia alguma pesquisa para uma aula, conferia na agenda as pendências da semana, ou revisava as notas para algum conto do meu infindável livro. Distraído, não percebi o começo da melodia. De repente, ela se fez presente.  Abandonei tudo que fazia, balancei, com alguma desorientação, minha cabeça, e disse para mim mesmo: “É um piano!”. Imitando o comportamento de algum herbívoro perdido na savana, fiquei imóvel e à escuta: a música vinha do meu prédio, ou de algum edifício vizinho?

Estava perto o suficiente para ser possível sentir vacilações, sutis mudanças de intensidade no pressionar das teclas. Sempre fui alguém mais afeito à canção popular, em especial ao rock and roll, portanto não pude julgar se aquilo que ouvia se tratava de uma boa execução. Quase: essa é a palavra, creio. Porque quase havia uma perda de foco na performance, quase as teclas eram apertadas com força demais, quase havia uma demasiada respiração na nota seguinte, quase reconheci o que era tocado.

Me levantei e fui à janela. Coloquei a cabeça para fora, tentando descobrir de onde vinha o som. No prédio da frente, vi em um andar uma mulher negra, baixinha, limpando uma janela. Em outro apartamento do mesmo prédio, um senhor branco, judeu a julgar pelo quipá em sua cabeça, mantinha, sentado em uma cadeira de rodas, o olhar fixo na rua logo abaixo. Era como se um andar tivesse se transformado em um quadro de Portinari e o outro, em um de Edward Hopper. E nada de achar o piano.

Primeiro, julguei se tratar de algum morador do meu prédio. Depois, conclui que o pianista tocava de outro local, porém não parava de me perguntar: moro nesse mesmo endereço já faz alguns anos, porque nunca tinha ouvido esse piano antes? E se fosse uma gravação? Me recusei a acreditar. A música me remetia a uma pessoa, não havia dúvidas. Alguém observando aquela bela manhã e calorosamente compartilhando sua música com todos nós; ou alguém atormentado por fantasmas e demônios interiores, buscando libertação a todo custo. Pensei primeiro em uma jovem com vestido de noiva (não me perguntem por que, mas ela tinha que estar assim); em seguida, em uma senhora com quase 90 anos, uma dessas velhinhas que encontramos em documentários de sobreviventes da Segunda Guerra Mundial; por fim, o pianista vestia cartola e sobrecasaca.

Daí lembrei de dois versos do poema “Pastor pianista”, de Murilo Mendes: “Soltaram os pianos na planície deserta/Onde as sombras dos pássaros vêm beber”. O poeta mineiro invocou Manuel Bandeira e recordei de um documentário. Assisti-o pela primeira fez há uns quinze anos, na casa de um amigo em João Pessoa. O filme revela um pouco do dia-a-dia do poeta pernambucano. O mais extraordinário não era a simplicidade do seu apartamento, ou qualquer um dos seus versos declamados ao longo do filme. Não. Nós assistíamos, admirados (vocês podem imaginar cinco pessoas ao mesmo tempo segurando os próprios queixos), Manuel Bandeira caminhar. Ou pegar uma garrafa de leite. Ou acender um fogão e fazer duas torradas. Porque para nós os corpos de Bandeira, ou de Murilo Mendes, desde sempre tinham nascido como estátuas, bustos, ou imagens impressas nas páginas dos livros.

Fechei a memória e corri para a janela, senti a urgência de rever tanto a mulher esfregando o vidro da janela, quanto o velho observando a rua. Havia algo que eu quase pude tocar, uma revelação, quem sabe uma forma de esclarecimento… Mas as janelas dos dois andares estavam cerradas. Talvez nunca tivesse havido alguém nelas? De qualquer modo, o quarteirão voltava ao silêncio.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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