Uma conversa sobre a editora cartonera Malha Fina

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Os projetos cartoneros, que produzem livros artesanais utilizando papelão e capas pintadas à mão, são uma das mais bem-vindas iniciativas editoriais dos últimos anos. Através da produção de livros baratos e sustentáveis, parte considerável destes projetos também se articula com iniciativas sociais e educacionais. Após o pontapé pioneiro dado, na Argentina, pela Eloísa Cartonera (2003), iniciativas similares se espalharam por vários países, inclusive no Brasil. Assim, é muito bem-vinda a chegada, aqui em São Paulo, de um novo projeto cartonero, o Malha Fina. Por e-mail, as duas coordenadoras da Malha Fina, a professora de Letras da USP Idalia Morejón Arnaiz, e a professora e mestranda em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana (USP), Tatiana Faria, conversaram um pouco conosco sobre o projeto.

CRISTHIANO AGUIAR | Gostaria que vocês falassem um pouco da Malha Fina: como surgiu? Qual a sua proposta editorial? Por que trabalhar com livros cartoneros?

Idalia Morejón Arnaiz e Tatiana Faria | A Malha Fina surgiu do intercâmbio entre pós-graduandos e professores da Universidad Nacional de Córdoba, Argentina, e da Universidade de São Paulo. Durante esse intercâmbio realizamos um projeto conjunto com a La Sofia Cartonera, dirigida pela professora Cecilia Pacella, onde criamos duas coleções: Mar de Capitu, de literatura brasileira contemporânea, e La Isla de Cartón, de poesia cubana. Vem dessas primeiras iniciativas nossa proposta editorial de publicar autores hispano-americanos inéditos no Brasil e, dentre os brasileiros, desenvolver séries editoriais com uma proposta crítica cuidadosa e pensada. Outro de nossos intuitos é estimular a criação literária dentro da universidade através de uma convocatória anual para autores inéditos alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Acreditamos que os livros cartoneros são perfeitos para este tipo de projeto pois nos dão liberdade para pensar nos aspectos materiais da edição, como as capas e o projeto gráfico, com mais liberdade já que um mesmo livro pode ter capas diferentes. Quando optamos por este tipo de edição também reivindicamos nosso lugar latino-americanista de atuação cultural, já que este tipo de edição surge na Argentina e vem se espalhando por todo continente.

CA | Vocês estão atuando a partir de um dos lugares mais legitimados e institucionalizados no campo das Letras em nosso país: a Universidade de São Paulo. Por outro lado, percebo uma alma bem “alternativa” na proposta da Malha Fina. Vocês têm uma alma “punk”, eu diria. Como conciliar estes dois âmbitos?

IMA e TF | Mantendo sempre a literatura como foco principal, sem restringi-la a um único bloco, seja ele o acadêmico ou o do mercado do livro.

CA | Na primeira leva da coleção, vocês escolheram quatro escritores: Heitor Ferraz, Fabiano Calixto, Julián Fuks, Juliano Garcia Pessanha. Que critérios foram levados em consideração para escolher estes autores e como foi o processo de escolha e editoração dos textos?

IMA e TF | Os quatro primeiros lançamentos são o resultado de um projeto de coedição entre as editoras Yiyi Jambo (Ponta Porã, na fronteira brasileira com Paraguai), La Sofía Cartonera (Universidad Nacional de Córdoba) e Mariposa Cartonera (Recife), com as quais temos afinidade editorial e também uma relação de herança direta devido aos projetos anteriores. Quando propusemos as coedições optamos por selecionar o Fabiano Calixto, Heitor Ferraz Mello, Juliano Garcia Pessanha e Julián Fuks por serem autores com vínculo direto com a USP, já que também são alunos da pós-graduação. Os textos foram cedidos pelos autores, alguns cederam textos inéditos, como o Juliano Pessanha e o Julián Fuks, e outros, no caso, Fabiano Calixto e Heitor Ferraz Melo, optaram por publicar uma seleta de poemas de livros anteriores e também alguns inéditos.

CA | Como vocês citaram, a Malha Fina trabalha articulada a outros projetos cartoneros, como a pernambucana Mariposa Cartonera ou a argentina La Sofía Cartonera, por exemplo. Qual a importância dessas parcerias?

IMA e TF | Essas parcerias permitem que os projetos editoriais circulem em âmbitos geográficos e sociais diversos. Entretanto, não podemos deixar de dizer que o impulso inicial para colocar a Malha Fina Cartonera em funcionamento dentro da universidade veio do Recife, mais precisamente através do Mariposa Cartonera e de seus editores Wellington de Mello e Patrícia Cruz Lima. Em novembro do ano passado eles ministraram oficinas de diagramação e confecção de livros cartoneros e capacitaram a nossa equipe de trabalho e também foram os responsáveis pelo projeto gráfico das coedições que acabamos de lançar.

CA | Após o lançamento dos primeiros livros da coleção já podemos saber quais os próximos passos da Malha Fina?

IMA e TF | No decorrer de 2016 publicaremos cinco títulos: Poesia língua franca, antologia com dez poetas hispano-americanos inéditos no Brasil a ser lançada no próximo dia 29 de abril no Centro Cultural B_arco, dois cadernos de ensaios de autores do Caribe Hispânico: Antonio José Ponte, de Cuba, e Eduardo Lalo, de Porto Rico, e por último os cadernos de poesia de Elvio Fernandes Gonçalves Júnior e Mauro Augusto Sousa, selecionados na Primeira Convocatória de Narrativa e Poesia Malha Fina Cartonera. Para o segundo semestre iniciaremos a seleção de textos para a coleção de Poesia e Performance e lançaremos a Segunda Convocatória para publicação de autores inéditos de alunos da FFLCH, a ser lançada em 2017.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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