Umbigocêntrico | 1353-1989-2005

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–    Giovanni, tenho uma coisa muito séria pra te falar.
–    Que foi, Diogo?
–    Sabe aquele seu livro que você me emprestou?
–    Sei, o Decameron, está gostando?
–    É excelente, gostei tanto que li ontem mesmo.
–    É uma maravilha, é um dos meus melhores livros.
–    Então, hoje na hora do almoço tive um tempinho e fui lá na sua casa devolver o livro.
–    Ah, não precisava, não tinha pressa.
–    Cheguei lá e a porta estava aberta.
–    Pois é, a fechadura está com um problema, preciso chamar um chaveiro.
–    Entrei lá e pra minha surpresa, minha esposa estava lá, com a sua.
–    Olha só que coincidência! Elas são muito amigas, né?
–    Mais que isso.
–    É mesmo, de uns tempos pra cá a amizade delas cresceu muito, elas vivem grudadas, é impressionante.
–    Mais que isso, Giovanni, elas são cúmplices!
–    Como assim cúmplices?
–    Elas estão nos traindo!
–    Meu deus! Não, não pode ser, quem eram os safados filhos da puta?
–    Aí é que está… elas estavam nos traindo com elas mesmas.
–    Hã? Como é que é? Você está querendo dizer
–    Exatamente, elas estavam nuas, na cama, se agarrando. Elas são lésbicas, nós somos casados com lésbicas, Giovannni!
–    Que escândalo, meu deus! E agora, o que é que a gente faz? Divórcio?
–    Não, a gente vai fazer melhor – vingança!
–    Vingança?
–    É, vingança. A gente vai dar o troco nelas.
–    Mas como é que a gente vai fazer isso, Diogo?
–    Lembra daquela parte do Decameron, onde um teve que dormir com a esposa do outro, pra que tudo ficasse numa boa, porque o outro já tinha dormido com a esposa do um?
–    Lembro.
–    Então?
–    Ih… qual é? Sai pra lá, Diogo!

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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