Umbigocêntrico | Ausências

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Demorei tanto para escrever sobre o filme Dúvida no blog do Vacatussa que outras películas foram se acumulando na mesma desculpa da falta de tempo. Quando fui organizar minhas idéias, percebi que três deles giravam em torno da mesma estratégia e poderiam se encaixar no mesmo texto. Não mais num simples comentário de blog, mas numa crônica metida a ensaio. Ou o que vocês acharem que é, minha opinião classificatória é a que menos importa no fim das contas.

Como o blog perdeu algumas atualizações para o Umbigocêntrico, ganhei mais um motivo para o título deste texto ser Ausências. Apenas uma coincidência literária em meio à contradição de ser justamente a inexistência a força que une filmes tão diferentes feito Dúvida, Simplesmente feliz e o curta Eiffel. Ao contrário de boa parte das obras cinematográficas, onde todas as informações aparecem mastigadas, entregues de bandeja ao público desestimulando a sua imaginação; os três revelam estruturas construídas a partir de bolhas de vazio.

Dada a declaração de um brutamonte comedor de pipoca ao fim da sessão de Dúvida de que achou o filme uma merda, é possível que essa seja uma técnica não muito atraente para as caixas registradoras de Hollywood. Mas do ponto de vista artístico, o que valoriza a obra do diretor John Patrick Shanley é justamente o alvo da reclamação do comedor de pipoca – a ausência, a falta de explicação, a dúvida. O filme nos convida ao debate, deixa lacunas, revela o desconforto da sociedade em conviver com incertezas.

A cena que, em roteiros mais tradicionais viria logo nos primeiros minutos ou seria deixada para o final na intenção de causar aquele impacto retumbante, mostra-se desnecessária em Dúvida. Tanto que nem aparece, e ainda assim o enredo continua girando em torno dela, com as engrenagens da trama funcionando em perfeita condição. Quando sobem os créditos, claro que a gente fica se perguntando o que aconteceu entre o padre e o aluno, vai tomar uma cerveja com os amigos elaborando teorias, juntando pedaços para chegar a uma conclusão.

Mas de que importa isso afinal? O vazio não seria tão atraente se a roupagem dele fosse mal costurada. Apesar da incoerência na cena em que a professora espia o armário do padre e do final com dosagem excessiva de melodrama, passagens como a do sermão sobre o boato e a apresentação da personagem de Meryl Streep revelam a riqueza dos detalhes de Dúvida, cujo roteiro é minuciosamente trabalhado para distribuir poesia em pequenos momentos.

Ainda que a discussão sobre as perspectivas da verdade se sobressaia, é possível encontrar na trama às transformações da igreja, o papel dos educadores, a luta pelo poder, o homossexualismo e a pedofilia dentro da igreja católica. O discurso é sutil, apenas lembra a ferida porque o resto já entrou em nosso acervo após os sucessivos casos de pedofilia entre padres americanos.

O mesmo acontece com Eiffel, curta de Luiz Joaquim. Em apenas três minutos exibindo diversos ângulos das torres gêmeas da Moura Dubeux, sem precisar dizer uma só palavra ou colocar uma nota explicativa na introdução, toda a discussão em torno da polêmica construção renasce em nossa memória. A música, que remete a Os incompreendidos de Truffaut, dá o toque de melancolia necessário para percebermos nossa impotência frente ao poder econômico, onde princípios de preservação arquitetônica é visto apenas como mais burocracia.

Simplesmente feliz explora um tipo de vazio mais narrativo, que foge ao âmbito do discurso. Nada acontece no filme de Mike Leigh. Vemos apenas dias comuns na vida de Poppy, que tenta contagiar o mundo com sua alegria. Ela dá aulas a crianças, diverte-se com amigas, tem aulas de flamenco, visita a irmã e aprende a dirigir. Não há amor impossível, planos mirabolantes, depressões a serem tratadas, tragédias familiares, catástrofes ambientais. Nada. Já estamos tão acostumados a roteiros esquemáticos, cheios de pontos de virada pra nos manter presos na poltrona, que passamos a sessão inteira a espera de uma revolução na trama, um estupro ou batida de carro. E, enquanto ficamos com a tensão programada por nossa mente de ratos de laboratório, Poppy segue sua vida feliz até subirem os créditos.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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