Umbigocêntrico | Bocejos

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Sou um homem feito de sono. Embora acorde antes do despertador tocar, o sono ainda é meu senhor. Com ele em forma de névoa na minha cabeça, levanto para cumprir a rotina matinal de ler o jornal no banheiro, comer torrada com requeijão e tomar um copo de leite com Toddy. Nem mesmo o banho é capaz de ativar meus neurônios, que continuam sonolentos enquanto dirijo até o centro ouvindo notícias no rádio. Se você me encontrar antes das dez, fique sabendo que a única forma de comunicação aceita pelo meu cérebro é o bocejo. Você abre a boca e eu respondo com o mesmo gesto involuntário acompanhado de um espreguiçamento.

A preguiça só desaparece quando chego no trabalho e vou direto à cantina bebericar um café. A cafeína invade meu cérebro com a violência de marretas demolindo uma parede. Aos poucos, o amargo do café vai abrindo com sopros feixes de luz nas espessas nuvens carregadas de cansaço. Que volta, insite em voltar, com suas promessas confortantes de sonhos enquanto minhas garfadas esvaziam o prato de almoço. Mas aí a agonia do trabalho o espanta, transformando-o em prêmio pelo cumprimento do expediente.

Até que chega o fim de semana com sua promessa de hibernação. A possibilidade de acordar tarde, mergulhar nos cochilos pós-refeição, passar dois dias inteiros pulando da cama para o sofá, usando livros e filmes nos intervalos apenas para embalar narrativas no universo dos olhos fechados. No entanto, esse desejo termina apenas como mais um sonho. Meus bocejos se perdem nos compromissos sociais de rever amigos, frequentar aniversários, aproveitar a namorada, pegar sol, andar de bicicleta, escrever pro Vacatussa, adiantar leituras para ter o que fazer na semana seguinte de trabalho e, ufa, descansar.

Não por acaso, é justo nas segundas-feiras que acordo mais zumbi. Nesses dias fico me perguntando por onde anda àquele Thiago que conseguia fazer farra em dia de semana, se divertir em três lugares na mesma noite e já se acostumara em assistir ao fim da escuridão no Garagem, no Rossi, no Mercado da Madalena ou em algum motel da cidade. Talvez ele continue com os mesmos hábitos, meus horários hoje é que se tornaram incompatíveis. Virei uma espécie de Cinderela misturada com a Bela Adormecida, às 3h o feitiço começa a se comunicar através de bocejos.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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