Umbigocêntrico | Conflito de gerações

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Sempre que a velha guarda do jornalismo fala da sua época, dois assuntos surgem como trunfo sobre os mais novos: a ditadura e a máquina de escrever. Os coroas adoram rememorar os tempos em que o jornalismo era uma atividade política, uma luta pela liberdade onde a clandestinidade surgia nas entrelinhas e podia provocar cadeia, tortura e morte. O som das redações era o do tec tec das máquinas de escrever e um erro de digitação, por mínimo que fosse, significava ter que bater tudo de novo.

Saudosos, falam das malícias para burlar a censura, das bebedeiras após o fechamento que varavam a madrugada e da técnica do carbono para se conseguir uma cópia da matéria. Pela entonação de voz, olhares e palavras; desconfio que eles devem considerar a nova geração um bando de menino buchudo que acha engajamento político vestir camisa vermelha pra ir votar, e que, mesmo tendo ferramentas imprescindíveis como o delete, o control cê e o vê, ainda abre a boca pra reclamar das condições de trabalho.

Como nunca levei jeito para atividades de educação artística e provavelmente minhas matérias não passariam de grandes manchas diante da técnica do carbono, fica difícil contestar a teoria dos mais velhos. OK, admito, temos o Google, o Wikipedia, corretores ortográficos e tudo mais ao alcance de apenas alguns cliques. No entanto, o aparente excesso de facilidades dos tempos pós-modernos escondem uma série de obstáculos que precisamos contornar, dia após dia, numa luta sem fim.

Não estou nem falando da camuflagem dos inimigos dos dias de hoje, porque isso, para mim, é mera retórica de quem nunca teve risco de tortura por expressar certas idéias numa matéria. Falo mesmo é das tentações que estamos sujeitos. Ao invés de encarar apenas a máquina de escrever e a página em branco, hoje temos o mundo ao alcance do mouse. Estamos sujeito a tal cegueira branca de Saramago. Tudo está tão exposto ao nosso nariz que a gente não consegue enxergar. A internet é um poço sem fundo, precisamos fingir que ela simplesmente não existe para conseguir fazer algo de produtivo na tela do computador.

Enquanto você tenta bater matéria, o Twitter lhe pergunta o que você está fazendo, uma dezena de amigos lhe chama para matar o tempo com besteira e sua caixa de e-mail vai atingindo a marca de quarenta mensagens não lidas. O que inclui desde promoções imperdíveis de 9,90 na Fnac ao novo ensaio fotográfico de Viviane Araújo (valeu, Barba!) para a Sexy. Perto disso a maçã de Eva parece tão inocente quanto dividir o mundo em esquerda e direita.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

3 Comentários

  1. olha, uma coisa é certa: o jornalismo tá ficando cada vez mais capenga. li uma matéria ontem no DP que me deu até vergonha. fiquei com vontade de te ligar pra reclamar!!

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