Umbigocêntrico | Da lama ao caos

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Ainda não entendi porque mudaram o nome da gripe suína para Influenza A (H1N1). Tentaram justificar dizendo que os bichos não pegam esse resfriado e o nome da doença poderia atrapalhar o consumo da carne porco, mas acho que faltou tato literário nessa renomeação aí. Convenhamos, o termo gripe suína é bem mais agradável e não impõe a mesma distância do esnobismo científico do Influenza A (H1N1). Por mais preocupante que seja esse vírus, falando dele assim parece até que não se trata mais de uma gripe.

O efeito é quase o mesmo de deixar de chamar seu melhor amigo pelo apelido para usar o número do RG dele. Desumaniza a história, transforma o assunto num produto de laboratório, asséptico, sem gosto. Talvez essa seja a intenção. A de neutralizar as possibilidades de associar a doença às críticas d’A Revolução dos Bichos, tirando o discurso político e social de George Orwell para colocá-los num ambiente de ficção científica improvável. A ideia de homens com gripe suína incomoda, faz a gente perceber nossa semelhança com os porcos.

Tal qual profetizou o escritor inglês, basta abrir os jornais para ver os rastros humanos de lama pelo mundo. A sujeira está em tudo o que é canto, exposta às claras, quase que numa vitrine. Na política já não se dão nem ao trabalho de escondê-la embaixo do tapete do Congresso Nacional, exibem suas astúcias no microfone, sob os holofotes das câmeras de televisão sem qualquer constrangimento, afinal, como confessou o deputado Sérgio Moraes, estão pouco se lixando para a opinião pública.

Do mesmo jeito que a personagem Napoleão deixou de negar sua semelhança com os humanos, os políticos cansaram de esconder os rabos. Agora eles colocam suas tripas como cordas de lingüiça a venda no mercado. O preço quem paga é a gente, assistindo de braços cruzados a lama entrar por debaixo da nossa porta, seja chegando dentro dos jornais ou trazida pelas enchentes.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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