Umbigocêntrico | Encontro silencioso

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Deu branco. O silêncio nem pediu licença, chegou e foi logo se instalando em minha cabeça. Me deixou calado por duas semanas, quase ausente nesse exercício semanal de alimentar a vaca. Fiquei mudo, confesso que mais por falta de disposição do que pela carência de ideias. Até pensei em falar sobre meu dilema futebolístico de torcer pelo Brasil, sabendo que as conquistas da seleção vão camuflar a roubalheira da construção dos estádios da copa e incentivar homenagens a Ricardo Teixeira, como aconteceu por aqui em Pernambuco.

Mas a preguiça foi maior que minha responsabilidade com vocês, parcos leitores. Afinal, apesar de ateu, também sou filho de Deus. Preciso descansar no fim de semana, já basta ser obrigado a escrever de segunda a sexta no jornal. Ou vocês achavam que eu fazia estas crônicas no expediente de trabalho? Pois é, enquanto vocês estão esparramados no sofá vendo Faustão, eu estou aqui, na frente do computador, tentando encaixar palavras neste texto. Hora extra não-remunerada, vale ressaltar, feito nos tempos de estagiário e de prestador de serviço.

Nas duas últimas semanas, porém, o cansaço mental falou mais alto. Mergulhei nos lençóis pra curtir a ressaca do fim de semana e relaxar os neurônios pra uma nova jornada atrás de matérias. A vaca só não morreu de inanição porque recorri a textos antigos, catei dois engavetados e os servi assim mesmo, cheirando a mofo, sem conferir a data de validade. Embora ninguém tenha reclamado de indigestão literária, confesso que – para mim, como autor – esse prazo já estourou. Nesse processo de olhar para trás, percebi, de fato, o motivo do silêncio.

Boa parte dos textos que escrevi foram vomitados para aliviar minhas angústias, esse sentimento de inadequação por ainda não ter achado um rumo. Perdido no curso de Turismo, falando para o nada nas tardes de sábado da Universitária AM, circulando por quase uma dezena de salas de desconhecidos na Católica e empacando na burocracia das assessorias de imprensa do Governo. Depois entrei no jornal, finalmente o jornal, ainda que pela tangente da política. Em seguida pelas periferias do meu interesse, correndo atrás de defuntos nas manhãs de sábado, de números em economia e discos na redação.

Tudo para conseguir uns trocados a fim de gastá-los em bares e motéis durante as madrugadas do Recife. Até que alguém começou a sorrir pra mim e – quem diria, depois de uma dança de forró – passou a frequentar minha vida. Apareceu assim, quase do acaso, como o convite que me encaixou no quebra-cabeça que venho perseguindo desde 2003. Pelo menos por enquanto, não tenho motivos para reclamar além da ausência dos incômodos da solidão e da insatisfação profissional que antes atraíam meu vocabulário.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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