Umbigocêntrico | Esgotado

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Chega, está bom, não aguento mais. Já sei que Michael Jackson morreu, foi pro beleléu. Não precisa ficar repetindo isso toda hora em todo canto. Também não quero saber o que tinha no testamento, nem aonde vai ser o velório, onde será o enterro ou o que a ex-cozinheira dele tem pra falar. Não é do meu interesse conhecer as passagens secretas do rancho Neverland, muito menos descobrir a paternidade dos filhos de Michael Jackson e ver sósias dele andar pra trás ao redor do mundo.

O cara morreu e pronto, a notícia já foi dada. Cansou, tornou-se velha desde que Ana Maria Braga começou a tratar do assunto. Logo na manhã seguinte após a confirmação da morte, já estava ela falando de Michael Jackson, com o Louro José fantasiado e um cover tentando repetir o moonwalk. Quando um assunto chega na boca da apresentadora, é sinal de que ele já está esgotado, sacramentado, sepultado.

Mas nesse caso tem sido diferente, a morte continuou a pipocar links nas agências de notícia. Lenny Kravitz declarou isso, Paul McCartney disse aquilo e Madonna comentou tal coisa. Ah, meu irmão, qual é? Foda-se. É melhor colocar um disco do cara pra tocar do que ficar ouvindo especulações de William Bonner sobre as causas da morte de Michael Jackson. Só fico imaginando o que vai precisar acontecer no mundo pra mudar o rumo da prosa.

Para a crise mundial surgiu a gripe suína, depois foi o acidente da Air France e agora Michael Jackson. Pior que falta de assunto não é. Estão aí a crise do Senado, a Flip e as sucessivas greves no Estado, mas em todo canto só se ouve falar em Michael Jackson. Nesse contexto, fica fácil entender o silêncio de consentimento em torno da inutilidade do diploma de jornalismo.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

1 comentário

  1. É , thiago, nunca, nem mesmo em minha tenra adolescência lá pelos anos oitenta, quando M. pipocou nos quatro cantos do mundo, vi tanta coisa coisa dele como agora. Confesso que também não aguento mais ouvir os primeiros acordes de Be it ( na minha vizinhança isso acontece lá pelas 05h30, quando estou acordando para ir trabalhar, queria saber quem é esse tarado), ou as 850 mil homenagens ao ídolo, ou o Gugu fazendo cara de triste e preocupado com a morte do camarada. Mas, se serve de consolo, talvez essa seja a última vez que estamos assistindo a um luto de artista tão demorado. A ressaca do M.J. vai passar, é claro, mas depois dessa… creio (talvez eu esteja querendo me adiantar muito no tempo) que não haverá outra. Espero.

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