Umbigocêntrico | IRreversível

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Menino sonha mesmo é em envelhecer ligeiro. Deixa o bigodinho de fiapo, faz cara de sério e se mete a dar opinião sobre todo tipo de assunto só para parecer adulto. Afinal, as benesses da maioridade são grandes: carteira de motorista, garantia de não ser barrado nas boates e acesso a filmes outrora proibidos. Mas depois de alguns anos deslumbrado com a independência da bolsa de estágio e a descoberta do sexo, logo a gente percebe a contrapartida das ações do tempo.

No começo você até encara os indícios de velhice com bom humor. Para mim, os cabelos brancos na cabeça sempre foram vistos como sinal de charme, a barriga ostentada feito troféu da vida boêmia e a falta de fôlego como consequência do videogame. Agora quando você chega no momento em que precisa pagar imposto de renda, aí não tem eufemismo que consiga desvirtuar a óbvia constatação. Você está velho, meu caro. É irreversível, não tem escapatória.

Daqui a alguns dias, palavras como aluguel, financiamento, noivado e casamento farão parte do seu vocabulário. Mal você vai se acostumar com a idéia da sua mulher fazer exame pré-natal e logo chegará a hora de fazer check-up. Pior, quando menos se espera, vai aparecer neguinho querendo meter o dedo onde não deve e falar em exame de próstata. Para essas coisas é num instante, agora o desenvolvimento de novas técnicas de prevenção leva décadas.

E só aí a gente percebe a relatividade do tempo. A demora para completar dezoito anos foi compensada com a rapidez que se passaram os tempos até o primeiro darf. É feito àquele filme de Tim Burton, Peixe Grande. Não adianta atrasar o relógio, porque ele vai cobrar com o pé no acelerador. Quando a gente vê, já nos transformamos num burocrata com patrimônio, investimentos em renda fixa e preocupações em juntar tudo o que é recibo para não cair na malha fina. Nossos sonos – antes sonhados com a mior idade, Scarletts e Angelinas – passam a ser embalados por desejos de restituição.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

1 comentário

  1. Good! Texto perspicaz Robin! Eu acho que preenchi errado meu IR, mas se eles me colocarem na malha fina eu digo que não sabia porque ninguém me avisou.

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