Umbigocêntrico | Mania de papel

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Alguém aí pode me indicar um psiquiatra? O caso é grave, descobri que sofro de um distúrbio mental autodiagnosticado como mania do papel. Percebi o problema após uma rápida tentativa de arrumar meu quarto, que resultou em três sacos de lixo, daqueles grandes e azuis, entupidos de papel. Dava pra garantir a fogueira de São João, mas, como tento ser ambientalmente correto, coloquei na cesta de material reciclável para se transformarem em outros papéis e voltarem a abarrotar meus armários até uma nova arrumação.

A não ser que vocês ajudem e indiquem um psiquiatra capaz de corrigir esse meu defeito de guardar tudo quanto é papel encontrado na rua. De panfleto a extrato do banco, de cartela da mega-sena a cupom fiscal, de bloquinhos de anotação a envelopes vazios. Isso fora o tanto de revista e jornal que vou acumulando na esperança de conseguir ler depois ou por achar que algum dia precisarei deles na vida. Meu quarto era um almoxarifado de quinquilharias, que serviam como uma espécie de memória auxiliar inútil espalhada por gavetas e prateleiras.

A sensação asfixiante só não era maior que o de alguns sebos do centro e do atelier de Paulo Bruscky. Mas eles, pelo menos, têm a desculpa romântica de construírem suas bagunças a partir de livros, catálogos e obras de artes; enquanto eu precisava me resignar ao vício de juntar troço sem qualquer critério ou justificativa. Até poderia tentar me defender alegando que na montanha de papel juntada existiam preciosidades como a Trip de Fernanda Lima pagando peitinho, mas não há justificativa aceitável para se guardar classificados de jornal de 2003.

Mas como tudo fica restrito ao seu quarto, esse é o tipo de vício bem aceito na sociedade. Você não dá vexame, não gasta fortunas nem corre o risco de ser preso e ter sua imagem de bom moço arranhada. Pelo contrário, você ganha fama de intelectual antenado com as novidades do mundo. As facilidades são tantas que, mesmo trancado em casa, os papéis continuam entrando por debaixo da porta. Quando fico uns tempos só, o desafio de cozinhar e lavar roupa é fichinha perto da bronca de lidar com os jornais que chegam todos os dias.

Sempre me imagino como o tio de Harry Potter tentando evitar que a enxurrada de cartas de Hogwarts chegassem ao bruxo. Primeiro os jornais formam pilhas no banheiro, depois forram o sofá, espalham-se pelo chão da sala e invadem os outros cômodos da casa. Apenas nesses momentos, quando andar pela casa exige movimentos precisos do salto triplo em distância, percebo que está na hora de alimentar o lixo com celulose. Nessa última arrumação, encarei minha patologia de frente. Adotei regras claras para não dar brechas a sentimentalismos baratos.

Lei Nº 3232, 26 de maio de 2009
Regulamenta o arquivamento doméstico
de papéis e outros objetos

Art. 1º Se boa parte do seu lixo é constituído de papeizinhos azuis que comprovam o pagamento em débito em conta, não há motivo para imprimi-los. Digite a opção que corresponde ao “Não” após aparecer a mensagem “Imprimir via do cliente?”.

Art. 2º Revistas e jornais possuem prazo de validade.

§ 1º Em caso de revista Veja, nem deixe entrar em sua casa.
§ 2º Se você não leu edições da Continente, Bravo e Rolling Stone de três meses atrás, isso significa que elas nunca mais serão lidas.
§ 3º A validade de
§ 4º Este artigo não se aplica a:
I – Piauí;
II – Vacatussa;
III – Histórias em quadrinhos;
IV – Entrelivros;
V – Edições especiais e de colecionador;
VI – Edições de jornal que se encontrem o termo “Vacatussa”;
VII – Matérias de jornal de sua autoria que podem contribuir para o seu currículo;

Art. 3º Reconheça que boa parte do que você aprendeu na universidade só serve mesmo para fazer as provas do curso. O fato de você ter tirado xerox ao invés de ter comprado o livro é um indício de que os escritos não merecem ser arquivados.

§ 1º Está vedada a destruição das cópias da pós-graduação e as que foram encadernadas;

Art. 4º Caso você tenha internet banda larga, não há razões para guardar revistas pornográficas em gavetas. Em poucos minutos e com grande facilidade, você é capaz de encontrar na rede mundial de computadores as mesmas fotos com a vantagem de não ocupar gavetas no seu quarto.

Segui à risca os critérios e cortei na carne. Lá se foram as pilhas de cópias acumuladas na graduação de Turismo, outro tanto na de Jornalismo e mais um bocado nos cursos aleatórios que fiz enquanto não sabia que caminho seguir na vida. Pior, dei adeus a minha pequena, mas valiosa, coleção de Playboy. Tchau Feiticeira, adeus Tiazinha, Alessandra Scatena, Mylla Christie, Adriane Galisteu. Minha cegueira fundamentalista foi tamanha que ampliei o último artigo para o arquivo musical do meu quarto.

Quando se passa um ano cobrindo música no jornal, você recebe tanto discos que esse papo de falência da mídia CD mais parece uma teoria apocalíptica semelhante às que decretaram o fim do rádio e do cinema com o surgimento da televisão. Juntei tudo e fui separando em três montinhos que poderiam servir de termômetro do atual momento da indústria fonográfica. Formei um Everest com destino ao lixão da Muribeca e um prédio caixão de três andares com direito a green card nas minhas prateleiras.

Sejam bem vindos Miles Davis, Pixinguinha, Pearl Jam e Profiterólis. Adeus Mister Bróder, Montanha Russa e Alcymar Monteiro (tá vendo, quem disse que a vida de crítico de música é fácil?). Confesso até que pensei em me desfazer de todos os meus discos, afinal meus MP3 já ocupam trinta gigas do iPod e outros treze no HD. Mas minha cegueira fundamentalista de faxina acabou logo que pensei no álbum branco dos Beatles.

O arrependimento ficou só mesmo por ter me desfeito dos peitinhos de Fernanda Lima, quem sabe com ajuda profissional eu não consiga superar o trauma… Como bom asmático, porém, reconheço que a sensação de ver as prateleiras vazias foi parecida com a de tomar nebulização.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

7 Comentários

  1. Julieta Jacob em

    Eu também tenho mania de papel, mas admito que já busquei ajuda psicológica seis anos atrás. Acabei descobrindo que, maior do que a delícia de gardar papel, é o prazer de rasgá-los, um a um, e me sentir uma pessoa organizada. Junto com com papéis que vão pro lixo, mando embora um monte de coisa entulhada em mim.

  2. Pelo visto essa patologia atinge muitos mortais. Eu também junto um monte de papéis, notinhas,coisinhas, extratos de banco que já apagaram, envelopes vazios, revistas e jornais do século passado e até mesmo ,para minha surpresa e vergonha, algumas notinhas de 2 reais já foram encontradas. O caos se fez em minha casa quando percebi que papéis úteis estão misturados aos inúteis, tudo entulhado , misturado, em aparente harmonia. Desconfio que é minha forma de manter minhas memórias úteis e inúteis.

  3. Meu pai tem mania de guardar jornais velhos, faz pilhas e pilhas de jornal, tem jornal por toda casa, jornais que tem mias de anos guardados, alguns chegam ate dar traça, fica difícil de limpar, porque ele se incomoda quando alguém mexe nos jornais, ele ocupam espaços, como sofá, moveis de banheiro, moveis da sala, ele não aceita ou não procura ajuda sobre o assunto, a mania ja vem se arrastando ha anos.
    Alguém tem alguma sugestão?

  4. Tamires Romano em

    Tooooooooootalmente te entendo.. to arrumando meu quarto agora e já enchi uma lata de lixo.. gente, quanto papel inútil.. nem dá pra acreditar em algumas coisas, mas enfim.. É engraçado pensar no porquê guardei algum papel e como aquilo era importante pra mim anos atrás.. e hoje, aff. é lixo, simples assim.. É muito bom mesmo poder rasgar e organizar as coisas do lado de fora, porque dá pra sentir que você está jogando fora velhos sentimentos, velhos rancores dentro também..
    Deus nos proteja! uahauhauha

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