Umbigocêntrico | O que fazer com um livro ruim?

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O que fazer com um livro ruim?
Thiago Corrêa

É inevitável, por mais cuidadoso que você seja, um livro ruim sempre vai se infiltrar na sua lista de leitura. Dada a quantidade de títulos lançados no Brasil, essa probabilidade só tende a aumentar. E aí, o que fazer nessa situação? Insistir, desperdiçar outras tantas horas e, ao menos, ter propriedade para justificar sua opinião, fundamentar uma crítica e escrevê-la na esperança de mostrar ao autor que nunca mais se atreva a ser escritor? Ou simplesmente parar no meio, fechar o livro, deixá-lo de castigo e partir para a purificação com um clássico?

Cada vez mais minha balança tem pendido às impressões por amostragem, feito as grandes empresas que abrem certo número de caixas, vêem o estado da mercadoria e, se não estiver tudo beleza, recusam o caminhão inteiro. Depois de trinta páginas sem encontrar qualquer indício literário, então, meu velho, o jeito é desistir mesmo e tentar achar utilidade pra ele. Uma dica é procurar usá-lo como moeda de troca. Junte alguns títulos e vá ao sebo fazer escambo. O dono vai dizer logo que não tem interesse em comprá-los, mas tente a permuta.

Não importa o que ele oferecer, aceite, mesmo sabendo que a soma dos seus livros ruins custam muito mais que o preço do título escolhido por você. Troque dois por um; três, cinco ou dez por um único exemplar. O esquema é não pensar em números, mas em termos literários. Vale mais ter um título que você vai ler lambendo os beiços do que uma tuia de livros de múmia ocupando espaço na prateleira. O problema é que o bom sebista também sabe disso, mas de vez em quando dá certo.

Outra alternativa é passar a bomba pra frente, dar esse livro de presente e evitar um novo gasto. Essa alternativa, no entanto, tem o efeito colateral de denegrir sua imagem de bom leitor, de intelectual que tem as opiniões respeitadas. Leve isso em consideração quando for presentear amigos e principalmente os inimigos. Já pensou no que esse povo poderia falar de você, caso eles ganhassem um exemplar chinfrim como sua recomendação?

Se você zela por sua imagem, o melhor é esquecer a grana e partir para a filantropia. Pelo menos assim, chegando numa ONG ou biblioteca para doar uma pilha de livros, você será visto como alguém bondoso, preocupado com a questão social, o acesso à leitura e a formação de novos leitores. Para a maioria das pessoas essa vai parecer uma saída nobre, mas que não me agrada nem um pouco. Como ainda guardo traumas por ter sido obrigado a ler José de Alencar no colégio, só consigo ver a evolução do problema nessa história de doar livros ruins.

Agora, em caso de nenhuma das opções anteriores terem adiantado, nos resta jogar os exemplares no lixo ou encontrar uma utilidade doméstica para o volume de papel que restou de uma tentativa literária. Quando a edição for grossa, de capa dura, ele pode servir como peso para não deixar a porta bater. Também serve como calço para elevar a altura do monitor ou da televisão, alinhando-os de acordo com a altura dos olhos, conforme as recomendações médicas. Não é muito apropriado, mas esse tipo de livro ainda pode ser usado como tamboretes ou mesmo como degraus de escada para se alcançar o pote de biscoito no armário em cima da pia ou os títulos da primeira prateleira.

Certa vez, antes de levantar da cama, Gisele Bündchen me disse que os livros de capa dura são ótimos para equilibrar na cabeça, enquanto treinamento de desfile para modelos. Nunca testei, o máximo que já fiz foi dividir alguns exemplares entre dois sacos e usá-los como peso para exercitar os bíceps. Presumo que os de capa não-plastificada também devem servir para iniciar o fogo do churrasco, você queima uma página e joga ele no carvão para criar brasa. No mínimo, o livro vai lhe ajudar a se alimentar de algo além de raiva e decepção. Mas o que mais dá vontade mesmo de fazer é pegar o livro e mandar de volta pro autor com a mensagem: não, obrigado.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

6 Comentários

  1. Senti uma pontada de maldade no comentário sobre a Bündchen, talvez seja só impressão.
    Descobri o skoob, um site que vc pode relacionar os livros que leu, que quer ler e até trocar os que não gostou. Depois dá uma olhada lá: http://www.skoob.com.br

  2. oi thiago, tudo bom? vc pode me indicar alguns sebos….!!! preciso fazer umas trocas….!! têm umas coisinhas ruins lá em casa e quero me desfazer!!!!

    gostei da trilogia!

    bjão!!

  3. estou ingressando cada vez mais no mundo literário, espero não tropeçar por livros ruins por aí. O jeito de evitar isso na minha opinião é pesquisar. E se pegar uma coisa ruim eu reciclo.

  4. HAHAHAHA… Sempre me deparei com essa dúvida: o que fazer? Concluo e xingo com propriedade ou desencano e vou ler um gibi da Mônica? Tanto para filmes como livros…
    Mas cheguei à conclusão de que nem para e nem para outro vale a pena perder o tempo. Existem tantos livros bons a ser lidos e tão pouco tempo para lê-los, que o prazer de ter razão, não vale.
    Ótima coluna!
    Beijos.

  5. dá raiva sim, mas nem todo mundo faz um livro ruim de propósito….
    bom, mais uma dica: reciclagem
    quem sabe num desses processos surge pelo menos uma página bem escrita?
    muito bom seu texto!

  6. Pingback: Questão de Gosto « Curtinhas Blog (http://curtinhass.blogspot.com/)

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