Umbigocêntrico | Por que ler um livro ruim?

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Por que ler um livro ruim?
Thiago Corrêa

A literatura é uma arte que nos faz pensar sobre a morte. Quando entro numa biblioteca, livraria ou simplesmente encaro minha própria prateleira, ali no corredor; sempre bate a angústia de sentir a areia do tempo escorrer entre meus dedos. A certeza de saber que não vou viver o suficiente para ler nem mesmo as obras essenciais para a literatura, só aumenta a pressão para não desperdiçar minutos de leitura com livros ruins. Mas calma, mesmo essa espécime de qualidade questionável às vezes tem salvação.

Primeiro repare em quem é o autor. Se for alguém que conseguiu mostrar sua capacidade em outras obras, vale a pena continuar. Mesmo estando num mau momento, não deixa de ser atraente perceber a trajetória daquele escritor, tentar entender sua obra como um todo e não através de partes isoladas. A esperança é que apareçam relances de outras histórias, explicações para características de sua literatura ou pistas do que está por vir.

Serve até como incentivo, afinal, se até Ele escreveu besteiras, por que eu, um minúsculo mortal que não vai ter tempo sequer de ler os clássicos, precisa acertar sempre? O problema é que essa estratégia tem ficado arriscada pela lógica do vale tudo das editoras, publicando qualquer manuscrito engavetado só por causa da assinatura de um Nabokov ou Sartre. No entanto, é uma aposta que precisa ser feita, de vez em quando o oportunismo capitalista serve para descobrimos obras como O processo de Kafka.

Outra hipótese – pelo menos para mim, que trabalho com isso -, é quando se trata de um escritor incensado pela mídia. O livro pode ser revoltante de tão medíocre, mas aí você tem a obrigação moral de continuar a leitura para protestar e não engolir discurso besta dos outros. Apesar do sufoco de domar o sentimento de rejeição por mais de duzentas páginas, ao menos você ganha o direito de meter o pau e, como bônus, ainda consegue enxergar o funcionamento do mercado editorial, suas táticas de marketing e os jogos de interesse cada vez menos literários que alimentam as pautas dos jornais.

Agora nem sempre o nome do autor serve como indicador de leitura. Há casos em que a margem de erro deve ir além daqueles autores que já entraram no circuitão. Se não existisse gente interessada em descobrir coisas novas, ainda estaríamos lendo e relendo os gregos. A procura no mar de autores estreantes é mais complicada, pode se conformar, você vai encontrar uma infinidade de textos desconexos, horizontes de lugares comuns e montanhas de pretensões literárias que não passam de cópias de estilos já consagrados.

Essa pescaria é entediante, você dedica horas de leitura, falando sozinho para, quem sabe, um dia fisgar um escritor de verdade no meio de tantos bagres. O risco aqui é maior, a escolha passa pela intuição, não tem regras, nem oferece bônus; apenas o sonho de encontrar algo que lhe surpreenda. Que vem em lampejos, surge aqui ou acolá, na construção de uma frase, numa mudança repentina de tempo verbal, na caracterização do personagem ou mesmo pela escolha do tema. E aí, meu querido, quando isso acontecer, finalmente você vai perceber o quanto a literatura é uma arte que nos faz pensar sobre a vida.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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