Umbigocêntrico | Prato cheio

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Há alguns anos, umas amigas do meu primo me perguntaram se determinado bar era bom. Eu, do alto de minha experiência de 15 anos de vida, fui logo dizendo que não, que aquele era bar de velho. E aí me questionaram qual o significado de velho. Pensei um pouco, multipliquei minha idade por dois e soltei: lá pros trinta. Resultado: quase fui expulso do carro. Hoje desconfio que só me pouparam de enfrentar a pé as ruas escuras de uma das cidades mais violentas do país para que eu mesmo descobrisse a ofensa de ser chamado de tio.

Apesar de não ter chegado aos trinta, já posso reconhecer a leviandade que cometi. Beiro as três décadas e estou longe de vislumbrar a época em que vou me sentir um velho, cansado da vida, arriado no sofá, só vendo repetições diante do meu nariz. Essa certeza veio justo quando minha carapuça de adulto parecia rígida, na fila do refeitório, querendo engolir o almoço para voltar logo ao trabalho. Por mais que ir ao refeitório já tenha se tornado uma rotina, tive uma amostra de que meus olhos estão longe de se acomodarem com o mundo.

Ainda não me acostumei ao tamanho dos pratos das pessoas. Fico besta ao ver que pratos com o mesmo tamanho do meu consigam abrigar tanta comida. A agonia que sinto quando preciso colocar a carne em cima do montinho de feijão, revela-se em curiosidade para descobrir como as pessoas constróem àquelas montanhas. Já entendi que o arroz tem papel fundamental nesse processo, serve como uma argamassa, um muro montado nas fronteiras do prato para conter o caldo do feijão.

A base precisa ser sólida, socada no fundo do prato para suportar a camada de macarrão, purê e as carnes ostentadas no topo da cadeia alimentar. Embora soe rústico, geralmente classificado como prato de pedreiro ou caminhoneiro, é preciso reconhecer que essas refeições são montadas com a meticulosidade de verdadeiros chefs.

Mas ao invés da preocupação estética em decorar os pratos com matinhos e riscos de mel, o que eles querem mesmo é desafiar a engenharia e a biologia, erguendo montanhas para fazê-las sumir dentro das suas barrigas. Resta agora descobrir como eles conseguem cortar a carne sem deixar a comida escapulir do prato. Quem sabe num próximo capítulo…

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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