Umbigocêntrico | Quinquilharias

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Quando meus espermatozóides fecundarem um óvulo, talvez eu vire uma pessoa mais conservadora. Mas, por enquanto, não vejo motivo para implicar com meus filhotes por eles passarem mais tempo lendo gibi ou jogando videogame do que estudando matemática. Ou física. Ou química. Ou biologia. Passei horas com a cara nos livros para decorar as funções do Complexo de Golgi e as lógicas da tabela periódica e, hoje, vejo que elas não passam de quinquilharias no meu cérebro.

Depois do vestibular, perderam a utilidade. Apenas servem nas poucas vezes que jogo Master em Serrambi, porque no resto do tempo só ocupam espaço feito troços de armário. Da mesma forma como o móvel está entupido de controle remoto de televisão quebrada, canivete, badoque e fitas cassete do Nirvana; minha caixa craniana ainda guarda fórmulas da velocidade angular e o know-how de tirar matrizes, raízes quadradas e números complexos.

O engraçado nisso tudo é que, quando a gente perguntava na época pra que diabos tudo isso ia servir, respondiam sempre que um dia descobriríamos. Tenho 28 anos e hoje, no máximo, uso a regra de três pra transformar números em porcentagens. Em minha profissão, mais importante que saber as diferenças entre mitose e meiose, foi “perder tempo” lendo as Bizz do meu irmão. Ou praticar air guitar enquanto o Metallica testava a potência do meu sonzinho Gradiente.

Imagina só escrever sobre o disco novo de Neil Young usando a equação de Schödinger e o Efeito Doppler – a variação dos arranjos de guitarra seguem uma freqüência de 3,2 hertz, de modo que cada acorde acelera a velocidade das ondas não-estacionárias permitindo aos ouvidos humanos chegar ao princípio da incerteza de Heisenberg. A provável ausência de lógica das últimas três linhas é proporcional à capacidade delas em transmitir emoções.

Por que não me ensinaram a jogar RPG ou disseram o que foi a Pop Art? Nem me apresentaram Neil Gailman, pediram para eu escrever uma redação sobre os Beatles ou mandaram a gente ler Maus na época em que estudávamos a Segunda Guerra Mundial? A vida escolar é um universo paralelo. Você não faz sexo, acorda às 5h30 da manhã e ainda precisa pedir autorização para ir ao banheiro. Você fica preso num casulo, discutindo obras de mil seiscentos e bolinha, enquanto o mundo continua acontecendo sem você.

Como até agora não desenvolveram uma máquina do tempo e os futuros cientistas troquem as Leis de Newton pelo PS3 depois de lerem este texto, o jeito é dar um sentido literário às essas quinquilharias. Não sem uma pontada de tristeza por saber que poderia ter lido mais quadrinhos do Homem-Aranha. Mas ao menos posso comemorar por ter desistido de química logo depois do pudim de passas e ficar escrevendo teorias sobre o nariz de Melo ser vermelho.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

3 Comentários

  1. Não sei você, mas eu encaretei. Fico hiper preocupado com as crianças de hoje, que aprendem Português sem ter a prática de copiar as tarefas de casa e ainda levam quilos de livros diariamente em suas bolsas. Na última reunião da Escola dos Filhos de Políticos eu já estava achando saber teorizar sobre a crise da alfabetização deste início de milênio.

  2. Só depois de muito estudo da matemática que você desenvolveu o raciocínio lógico para escrever 🙂 (já achei uma função para as quinquilharias).. Mas, meu bem, se preocupa não, eu sou careta por nós dois 😉

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