Umbigocêntrico | Violência

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Depois de seis anos de pesquisa, cerca de 300 cientistas de 23 países conseguiram mapear o DNA bovino. Quando chegar a vez do genoma humano ser totalmente desvendado, algo previsto para ocorrer em 2025, os pesquisadores poderão confirmar minha tese de que o gosto por filmes violentos está presente no Y do último par de cromossomos do homem. Consumir violência é uma necessidade animal, um instinto que age para criar calos de insensibilidade na tentativa de agüentar a vida.

É algo que corre em nossas veias, o sintoma se manifesta desde cedo. Na minha época, não sei se ele apareceu primeiro com o seriado do Batman gordo dando seus socos onomatopéicos de pows, thunks e whooshs; com as aventuras de Bud Spencer & Terrence Hill ou através dos filmes dos Trapalhões, quando Didi gritava “porrada” dando início à pancadaria. Das lutas caricatas de tapas ao pé do ouvido, passei para as artes marciais de golpes mirabolantes que depois ficava tentando imitar com meus bonecos de Comandos em Ação.

Van Damme era o cara, mas os tempos mudaram. O sangue apareceu, entrei na fase de alugar fitas de vale-tudo e filmes trash que traziam imagens reais de acidentes, suicídios e execuções. As cenas de violência perderam o tom cômico e abandonaram a busca pela beleza para nos dar tapas na cara, socos no estômago e chutes no saco com a tal da hiper-realidade. As imagens beiram a perfeição publicitária, surgem detalhadas em câmera lenta.

É um teste de resistência para ver até onde você agüenta tanta brutalidade. Apesar de gostar e mesmo vibrar com o derramamento de sangue na tela, confesso que estilei com a cena do extintor de incêndio esmagando um rosto em Irreversível, da decepação de orelha em Cães de Aluguel, do maçarico em O Albergue, a da língua em Old Boy e a facada no olho de Senhores do Crime.

Embora tenha tapado a vista nessas partes, os filmes não estão correspondendo ao efeito vacina esperado. Coisas muito menores da vida real continuam burlando meu sistema de anticorpos criados para evitar choques. E não estou nem falando das tosqueiras que vi enquanto fazia ronda policial no jornal, o que inclui alguns assassinatos e o corpo inchado de uma mulher encontrado no rio.

De nada adianta ver olhos estourados na tela, quando uma lapada de ordem moral lhe atropela. A porrada de descobrir que gente próxima, que até então você confiava, usa sua vontade em ajudar para te enrolar é muito mais avassaladora do que qualquer cena de filme de zumbi com vísceras expostas e sangue espirrando.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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