Utopia às meninas

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Para ler ao som de Alice Coltrane – Turiya And Ramakrishna

A correnteza ondulava em marolas gordas conduzindo corpos que já não alcançavam o chão. Afastavam-se, duas delas, da muralha de pedras amarelas, nadando direção a uma ilhota também de pedra, sendo essa verde lodosa e escorregadia, hora vista hora encoberta pelas ondulações provenientes lá de muito dentro do mar. Luzia, o nome dessa pedra. Grande e escorregadia como Luzia. Luzia riu um pouco tímida, agarrando-se, como podia, à pedra. Ela e Francisca caminharam olhar através do braço de mar que haviam atravessado alcançando, do outro lado, Iara e Lurdes, deitadas em cangas coloridas sobre a muralha de pedras amarelas, justaposta a suas peles aquele mormaço salubre do litoral. De longe, apoiadas na ilhota de pedra lodosa, Luzia e Francisca observavam suas amigas no cenário de pedras amarelas, ao redor das quais se estendia um manguezal. Peles douradas com o contrastante sol das 11h da manhã. Os pés das meninas, vira e mexe, refrescados pela barra de espuminha nas ondulações que já se avantajavam, minuto a minuto, vindo lá de muito dentro do mar. Haviam deixado marisquinhos temperados à tomate, coentro e cebola na panela de barro, aquecendo no fogão.

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Sobre o autor

Publicitária e designer por formação. Minha construção artística, visual, literária, ou o que seja, tem sido empírica, experimental e mantém-se em processo. Encontrar qualquer modelo ou filtrar relevâncias no meu histórico que justifique qualquer posição que eu ocupe é cada dia mais difícil, e tenho achado isso ótimo. Prefiro manter-me vasta.

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