Viagem ao fim da noite

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Louis-Ferdinand Céline foi colaborador dos nazistas e escreveu três panfletos de conteúdo anti-semita, mas não é disso que desejo falar, mas de um de seus livros, publicado em 1932, na época um estrondoso sucesso. Nas mais de 500 páginas de Viagem ao fim da noite nota-se uma nova interpretação da modernidade, um livro, como poucos, arrebatador, um verdadeiro prodígio da criação artística, tão monumental que sobreviveu apesar das escolhas imperdoáveis de seu autor e toda difamação dos hipócritas.

Na primeira parte do livro encontramos Ferdinand, o personagem, voz em primeira pessoa, alter-ego de Céline. Ele se alista e vai para a guerra, mas não faz isso movido por ideal, antes o faz por fastio ou curiosidade. Mais tarde encontramo-lo metido em outras situações: numa distante África colonial e depois como estrangeiro vivendo nos Estados Unidos da Recessão, período que se encerra com sua volta à França, onde continua se sentindo estrangeiro apesar de sua ocupação como médico nos subúrbios miseráveis de Paris. Nos sucessivos cenários Ferdinand nos dá conta da desolação. A guerra, o meio do nada na África e a terra estrangeira reproduzem ambientes dignos de pesadelos, ambientes que nos causam gastura, tão deslocados e desconfortáveis nos sentimos. Entre os miseráveis, nos subúrbios, acompanha a escalada do horror representado pela morte iminente em decorrência de moléstias que antes de tirar a vida dos infelizes, tira-lhes a dignidade. Também o encontramos sofrendo de impotência porque sua ciência não lhe deu condições de salvar a vida de um garotinho de sete anos. É coadjuvante em outros episódios, foge e tem seus serviços requisitados para trabalhar num manicômio. Nesse período reencontra Robinson e Madelon e acompanha até o desfecho trágico o relacionamento doentio dos dois. Em todos esses momentos, vive quase no limite, seja porque acometido pela fome, sede, humilhação ou perplexidade.

A viagem ao breu da desesperança não é estratégia que leva Ferdinand à expiação. Não é de Raskólnikov que estamos falando, sofrendo por acreditar-se culpado num mundo racional, habitado por bons e maus. Para Céline não há inocentes nem redenção, o mundo não tem sentido, existir é uma maldição, e Deus, mais uma mentira inventada com a pior das intenções. A viagem não ilumina nem amadurece. As sucessivas provações não têm um propósito, antes consequências, e delas, as consequências, resulta apenas um espírito embotado e um corpo alquebrado.

É preciso dizer que Céline faz parte daquele grupo de escritores malditos, movidos por um forte sentimento de pessimismo com relação ao gênero humano, tudo o que diz soa no primeiro momento sacrílegio, um Sade piorado, já que o outro, ao menos, encontrava na libertinagem justificativa e lenitivo para o doloroso existir. Mas esse pessimismo, esse despeito, uma fúria incontrolável por uns e um nojo abjeto por outros, que faz Ferdinand esculhambar a tudo e a todos, e até dirigir-se nesses termos a seu povo, o povo francês, essa “corja de fodidos, catarrentos, pulguentos, espezinhados, que vieram parar aqui perseguidos pela fome, pela peste, pelas doenças e pelo frio, os vencidos dos quatro cantos do mundo.” Essa fúria é, em última análise, a fúria de um homem que se importa.

Não é cinismo o que suas palavras traduzem, mas desespero.

O desespero de quem se incomoda. Depois de viajar até a página 108, surpreendeu-me suas considerações a respeito de Alcide, um outro perdido a quem Ferdinand encontra em sua jornada pela noite. A princípio um tipinho medíocre, a quem nosso herói devotaria todo seu desprezo não fosse um detalhe. Destacando num posto avançado de uma das colônias francesas da África, Alcide vive toda uma vida miserável, cheia de privações, para garantir a uma menininha, sua sobrinha, deixada lá em Bordeaux, uma educação das melhores, no colégio das irmãs chiques. Também há Molly, a prostituta americana, uma outra Sônia de Crime e Castigo, um corpo que se presta ao comércio da carne e mesmo assim abriga uma alma puríssima, capaz de renúncia e sacrifício. O sacrifício por outro, que ao Marquês causaria deboche, enche os olhos e a alma de Céline, alguém que defendeu com entusiasmo a morte dos judeus.

Contradição? Sem dúvida. Céline é paradoxal e como os pessimistas, sente uma irresistível paixão por aquilo que condenam, em seu caso, o gênero humano. Assim como Kafka, seu mundo está povoado de pesadelos, e se não há saída, não há esperança, resta o desespero.

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