Você vai voltar pra mim – Bernardo Kucinski

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

kucinskiAutor: Bernardo Kucinski (São Paulo-SP, 1937). Escritor, jornalista, ex-assessor da Presidência da República no primeiro mandato do Governo Lula e ex-professor da USP.

Livro: É o primeiro livro de contos do autor. O volume reúne 28 histórias curtas. A edição conta com prefácio de Maria Rita Kehl e orelha do escritor Julián Fuks.

Tema e Enredo: Você vai voltar pra mim é um projeto que procura, ficcionalmente, dar conta de uma espécie de História Cotidiana dos efeitos causados por um Regime de Exceção.

Forma: Uso do humor; tentativa de sempre revelar um ângulo novo sobre o tema escolhido e ausência de um tom rançoso, ou naturalista.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

Perspectivas sobre regimes autoritários

Uma das perguntas que me fiz ao terminar a leitura do bom Você vai voltar pra mim, primeira coletânea de contos do escritor Bernardo Kucinski, foi esta: como encontrar um equilíbrio entre criação ficcional e a necessidade do testemunho? Tanto neste livro, quanto no seu anterior, o impactante romance de estreia K, não pude evitar fazer a todo instante um trabalho de comparação entre o narrado e a “vida real”. No prefácio que Maria Rita Kehl escreveu para Você vai voltar pra mim, há uma inquietação semelhante: “Embora o autor não nos explique nada a respeito da veracidade, ou não, dos episódios, alguns deles são  muito conhecidos das vítimas e dos estudiosos do período”.

kucinski-fotoKucinski sabe bem do que está falando. Após uma trajetória importante como jornalista e acadêmico, sempre vinculado à esquerda, o autor de Você vai voltar pra mim, aos 70 anos, se torna escritor de ficção, primeiro publicando em revistas e, finalmente, lançando seu primeiro romance em 2011. É uma trajetória fascinante: lançado primeiro pela editora Expressão Popular, com pouco trabalho de publicidade e por uma casa editorial que não está necessariamente relacionada à legitimação da carreira de um escritor contemporâneo, K logo conquistou uma base de leitores, esgotou tiragens, foi finalista de prêmios e passou a ser traduzido para várias línguas. O romance, sobre o qual ainda escreverei aqui mesmo no Vacatussa, reinventa uma tragédia familiar – a morte, pelas mãos da ditadura, da irmã e do cunhado de Kucinski – através de uma escrita cujas qualidades podem ser encontradas, em maior ou menor grau, também nos contos agora lançados pela Cosac Naify (editora que acaba de relançar uma nova edição do romance). A boa recepção dos dois livros em parte se explica pela sua força temática: nunca foi tão necessário pensar a ditadura militar em toda sua complexidade. E creio que deve caber à ficção brasileira um papel de protagonismo nesta reflexão.

 A pertinência social do tema, contudo, de nada adiantaria se não tivéssemos linguagem. Gostaria de destacar três características que me surpreenderam ao ler Você vai voltar pra mim: 1) o humor; 2) sempre tentar, nas narrativas, revelar um ângulo novo sobre o tema escolhido; 3) a ausência de um tom rançoso, ou naturalista. Quando os contos articulam estes três elementos, enquanto ao mesmo tempo desenvolvem os conflitos dos personagens e relacionam estes conflitos com diferentes temáticas, Kucinski se revela uma voz bem original e é impossível não nos questionarmos: por que esta voz demorou tanto para aparecer? É o caso, por exemplo, do conto-soco-no-estômago Sobre a natureza do homem. Aqui, a denúncia contra a violência militar é relacionada a outros temas, tais como o da violência contra a mulher ou a discussão sobre os dispositivos psiquiátricos. Estes temas, no entanto, não são jogados na cara do leitor pedagogicamente; pelo contrário, dizem respeito ao desenvolvimento trágico da trajetória da protagonista. E quando o humor aparece na fala que encerra o conto, ele é ao mesmo tempo irônico e brutal.

 K. já possuía uma estrutura bem fragmentada – a ponto de até hoje eu me perguntar se não seria melhor chamá-lo de livro de contos – e o fato de Você vai voltar pra mim não procurar desenvolver uma “espinha dorsal” narrativa para além da coincidência temática entre as histórias me pareceu uma opção válida. Desta forma, se reitera a pluralidade de abordagens, pois Você vai voltar pra mim é um projeto que procura, ficcionalmente, dar conta de uma espécie de História Cotidiana dos efeitos causados por um Regime de Exceção. Que expectativas surgem entre os presos políticos, por exemplo, quando uma lista de possíveis anistiados é lançada? Quais as visões conflitantes que três filhas possuem do próprio pai militante de esquerda? Quem é a mãe de santo que volta e meia leva quitutes para os presos e conquista até o mais brutal dos militares? Sabemos os impactos da ditadura em cidades grandes como Recife, ou São Paulo, mas o que aconteceu em lugares bem pequenos do interior do país, por exemplo? Todas estas perguntas representam linhas narrativas abertas por Você vai voltar pra mim e o foco recai com constância no impacto que a violência teve nas famílias e especialmente nas mulheres. A pluralidade de abordagens implica que tanto temos espaços já tipicamente cartografados pelas narrativas a respeito da ditadura – o camburão, o presídio, a sala de reuniões, o manicômio -, quanto temos outros menos frequentes, como a praia de Copacabana no bem-humorado conto Negra Zuleika, ou a sala de um terapeuta familiar em Terapia de Família. Da mesma forma, personagens típicos, como o Rebelde, O Torturador, o Pai Conservador reaparecem  ao lado de outros menos usuais (como a mãe de santo já citada antes)  e os contos me despertaram maior ou menor interesse à medida em que essas relações saíam das expectativas do lugar comum.

Um exemplo: em um dos melhores contos, Os gaúchos, temos uma clássica relação de rebeldia entre o filho militante de esquerda, que flerta com a luta armada, e o pai conservador e apoiador do Golpe. O confronto entre os dois personagens vai se desenvolvendo e o clímax acontece numa cena/espaço também muito frequente: a mesa de jantar. O pai deseja que o filho assine uma carta de retratação que poderá garantir ao filho uma maior empregabilidade. O jovem grita, esmurra a mesa e afirma que nunca trairia seus princípios. Neste ponto da leitura, cheguei a pensar: “agora a casa cai, o pai ficará colérico, fora de si”. No entanto, não é bem isto que ocorre e a reação do pai é impagável: “num tom que mistura orgulho e tristeza, ele diz, categórico: ‘Muito bem, meu filho. De um Saraiva de Carvalho eu não esperava outra coisa”. Quanto pode ser pensado – o conflito de gerações, o orgulho nobiliárquico das classes dominantes, a ética do “cabra macho”, as expectativas da paternidade – a partir de poucas e concisas palavras! O pai (e sua relação com o filho) subitamente cresce enquanto personagem: sendo um careta, ele não é apenas mais um careta.

Penso que alguns leitores vão achar o recorte de Você vai voltar pra mim muito “esquerdocêntrico”. De fato, as diferentes abordagens giram ao redor de personagens vinculados à esquerda e com ênfase naqueles dedicados à luta armada. No entanto, outra qualidade dos melhores contos de Você vai voltar pra mim reside em mostrar as diferentes contradições, bem como as discordâncias de método, dentro da própria esquerda e isto pode ser conferido em contos como Um homem muito alto, Recordações do casarão, ou A troca. Por fim, gostaria de expor algumas ressalvas. Retomando a pergunta que inicia este texto, penso que os contos que menos me interessaram são aqueles que, de uma maneira, ou outra, perderam sua autonomia, enquanto texto literário, em função da denúncia, do registro dos fatos, da explicação do contexto. Autonomia: sei que este é um conceito, no contexto das discussões literárias, combatido, imanentista, quase direitoso. Mas gostaria de explicar este ponto citando como exemplo o ótimo conto O velório.

No conto, acompanhamos um sóbrio relato a respeito do velório de um corpo ausente, o de Roberto, provável militante da esquerda desaparecido durante a ditadura. Após décadas, sua família decide finalizar o trabalho do luto e empreender um enterro simbólico que mobiliza toda uma pequena cidade. A metáfora do cadáver ausente, da necessidade de completar o luto, é muito poderosa e penso que este conto poderia ser tomado como uma espécie de poética condensada, secreta, dos dois livros de Kucinski. No entanto, o modo como o autor finaliza o conto me frustra, porque o texto sente a necessidade de reiterar, de explicar, que aquele é um enterro sem cadáver, o que retira um pouco da força da sua própria imagem central. Assim, alguns dos contos de Kucinski não finalizam muito bem. Em outros casos, como é o do conto Joana, temos textos que soam mais como rascunhos de contos ou de perfis jornalísticos. A minha hipótese é a de que o calcanhar de Aquiles de Você vai voltar pra mim se expõe justo quando o autor não consegue equilibrar bem as necessidades internas da própria criação ficcional com o compromisso da denúncia e com a influência da escrita jornalística. Apesar dessas ressalvas, no entanto, mesmo nos contos que não me agradam, é possível encontrarmos duas qualidades que, no fim das contas, definem um bom escritor: a formulação marcante de uma linguagem própria aliada a um olhar.

Cristhiano Aguiar

Lido em abr. de 2014

Escrito em 14.04.2014

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Você vai voltar pra mim e outros contos

Bernardo Kucinski

Cosac Naify

1ª Edição, 2014

192 páginas

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“Trabalham as três no mesmo prédio. Zuleika está de biquíni branco. As duas amigas são mulatas de tez café com leite; uma está de biquíni azul, a outra de vermelho. Conversam animadas enquanto quanto Zuleika cantarola uma canção que ouvira dias antes no apê dos patrões. É uma canção que fala de não esperar, de ir embora, não para fugir, para fazer e acontecer. É com ela mesma, Zuleika faz e acontece.”

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José Castello, no O Globo, em 15 de fevereiro de 2014

(http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2014/02/15/jose-castello-livros-de-bernardo-kucinski-mostram-dores-da-ditadura-524482.asp)

“Sua escrita é um exorcismo dos dolorosos anos da ditadura militar originada pelo golpe de 1964. Não é, porém — como se pode temer em um primeiro instante —, uma “literatura engajada”, ou panfletária. Kucinski não escreve panfletos, mas ficção da mais alta qualidade. Nela incluída improváveis histórias pessoais, pequenos sentimentos, dores secretas e toda a miudeza atroz de aflições que definem o humano.”

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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