W. B. & os dez caminhos da cruz – Everardo Norões

1

AVALIAÇÃO

60%
60%
Bom
  • Thiago Corrêa
    6
  • Avaliação dos visitantes (Avaliações)
    0

PRÓLOGO

Autor: Everardo Norões nasceu no Crato-CE, em 1944. No Brasil, tem dez livros publicados, entre eles os de poesia A rua do padre inglês (2006), Retábulo de Jerônimo Bosch (2008), Poeiras na réstia (2010) e o volume de contos Entre moscas (2013), pelo qual chegou a ser finalista do Prêmio Jabuti e do Prêmio Portugal Telecom.

Livro: Plaquete publicada na Páscoa de 2012 pela editora Paés. A edição é bilíngue, nas páginas da direita estão os poemas de Everardo em português e nas da esquerda se encontram suas traduções para o alemão, feitas pelos gaúchos Regina Siegrid Brauer de Nin e Romar Rudolfo Beling.

Tema e Enredo: Série de dez poemas inspirados na vida e na obra do pensador alemão Walter Benjamin, que abordam assunstos culturais, políticos e acadêmicos.

Forma: Poemas livres que tentam interpretar aspectos da contemporaneidade a partir do olhar e das ideias deixadas por Walter Benjamin em sua obra.

CRÍTICA

E se Walter Benjamin nos visitasse no século XXI

Quem já passou pelos cursos de Letras ou de Comunicação Social provavelmente deve ter o pensador alemão Walter Benjamin como um dos pilares da cultura no século 20. Autor de artigos como A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, o teórico da Escola de Frankfurt deixou um legado que nos permite enxergar criticamente práticas que há muito se impõem como naturais. Diante dessa herança, o poeta Everardo Norões decidiu explorar o pensamento de Walter Benjamin como fonte de inspiração para a série de poemas que se encontram na plaquete W. B & os dez caminhos da cruz.

Publicada em 2012 pela editora Paés, a edição é bilíngue e traz os poemas originais em português acompanhados de suas versões em alemão pelos tradutores Regina Siegrid Brauer de Nin e Romar Rudolfo Beling. A plaquete de 24 páginas reúne dez poemas de Everardo Norões, onde o poeta aborda diferentes temas da contemporaneidade a partir das ideias de Walter Benjamin, como a política, o meio acadêmico, o consumismo, a desigualdade social e a cultura de massa, a exemplo do cinema e das livrarias.

Nesse conjunto de poemas, a perspectiva do poeta vai além da abordagem teórica da aplicação de citações na tentativa de entender/explicar os fatos do cotidiano. O processo utilizado por Everardo Norões é outro, está mais para um método antropofágico onde ele mergulha nas ideias de Walter Benjamin e emerge no século XXI para observar, com os olhos de outrora, o resultado cruel de seus diagnósticos feitos ainda no início do século passado.

É o efeito do espanto proporcionado por uma viagem no tempo que os poemas de W. B & os dez caminhos da cruz se sustentam. Aqui, Walter Benjamin deixa de ser uma fonte de conhecimento e ressurge como personagem, vagando incrédulo pelas ruas de Marselha, Paris, Ibiza ou Recife. Nesse deslocamento, ele se percebe exilado, fora de contexto, na solidão, alheio às cobranças de produtividade acadêmica, reticente à diversidade de produtos no supermercado, ao cinismo da política, ao poder do concreto sobre a natureza, ao espetáculo visual das livrarias em detrimento à introspecção da leitura.

Lido em novembro de 2014
Escrito em 30.11.2014


Relação com o escritor: Conheci Everardo Norões por conta de uma matéria que fiz sobre o livro Obra Completa de Joaquim Cardozo, que ele organizou. Daí pra frente, temos mantido contato em eventos literários.

FICHA TÉCNICA

W. B. & os dez caminhos da cruz
Everardo Norões
Tradução: Regina Siegrid Brauer de Nin e Romar Rudolfo Beling
Editora: Paés
1ª edição, 2012
24 páginas

TRECHO

“ninguém se deitaria à noite
sob a marquise
para ouvi-lo contemplar
o outro lado das constelações
apenas três crianças
a cheirar cola
se aproximariam para perguntar
que deserto existe
além do mais alto céu
a resposta seria sufocada
por gritos
urros
latidos de cachorros
posto contra o muro
arrancar-lhe-iam
lápis e os coloridos cadernos
de anotações
nos anúncios das avenidas
vislumbraria uma cruz
a atravessar um horizonte de bêbados
e em meio ao cheiro de vômito e urina
descobriria que restara
no bolso do casaco
vinte gramas de cianureto de potássio” (poema Sob a marquise, p. 23)

EPÍLOGO

Rascunho: Os poemas foram publicados no jornal curitibano Rascunho.

LEIA TAMBÉM

Do mesmo autor

Poemas – Everardo Norões

A rua do padre inglês – Everardo Norões

Retábulo de Jerônimo Bosch – Everardo Norões

Poeiras na réstia – Everardo Norões

Entre moscas – Everardo Norões

Compartilhe

Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

1 comentário

  1. Pingback: Dossiê: Everardo Norões - vacatussa

Comente!