William Hazlitt e o maracujá

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Recentemente terminei temporadas de Penny Dreadful, Game of Thrones e Hannibal, portanto estou me sentindo um tanto macabro esses dias. Planejei um post sobre literatura e violência, mas hoje vou deixar essa ideia de lado e falar com vocês a respeito da necessidade, inevitável que um autor sente de odiar as suas criações. Sou, aliás, favorável à implantação de políticas de contenção dos bons sentimentos. Por isso, aquele ursinho fofo, sorridente, de braços abertos, de cuja orelha pende uma etiqueta certificando o quanto Tudo Está No Lugar Correto & Apropriado, simplesmente não vai ser útil para você entender ao menos duas coisas fundamentais: sexo e literatura. O pudor e certa falta de prática me impedem de falar do primeiro nesse momento; continuemos com o segundo.

O escritor inglês William Hazlitt escreveu um ensaio chamado Sobre o prazer de odiar, publicado em 1826 e traduzido no Brasil, com 185 anos de atraso, em 2011 pela revista Serrote (vocês podem ler uma tradução alternativa nesse link, feita por Paulo Raviere Barreto Dourado. Usarei essa tradução aqui). Como o próprio nome diz, Hazlitt faz um comentário ao ato de odiar, detestar, repudiar, vilipendiar, agourar, antipatizar. Ele enxerga nisso uma característica estruturante da condição humana – “O espírito da malevolência sobrevive ao seu empenho prático. Aprendemos a frear nossa vontade e a manter nossas ações manifestas entre os limites da humanidade, muito antes de podermos subjugar nossos sentimentos e pensamentos ao mesmo tom de brandura. Desistimos da demonstração externa, a violência bruta, mas não podemos nos separar da essência ou princípio da hostilidade” –, característica essa que nos impede de melhorar como espécie. Por todo o lado, diz Hazlitt, prosperam a hipocrisia, a subserviência, o egoísmo, a loucura e a imprudência, justamente porque estamos todos apegados ao prazer de odiar.

Isso se reflete, segundo o autor, no amor, na religião, na política, nas amizades, mesmo nas nossas leituras. Não vou nem falar do inferno das redes sociais, logo fiquemos no mundo offline. Quantas amizades íntimas não são desfeitas pelo desgaste da convivência frequente? Quem nunca se juntou com X ou Y para desabafar suas ressalvas e incômodos a respeito de Z, sendo todos membros de um mesmo círculo de amizades? Amor: para mim poucas coisas são mais fascinantes do que enlouquecer de paixão por alguém e, passado o tempo, enjoar, desgostar e mesmo detestar a pessoa antes amada. Como exatamente acontece essa alquimia? Transamos várias vezes, trocamos saliva, conhecemos a sogra e o cachorro, trocamos presentes, respiramos a imagem daquela pessoa horas por dia… Então, acaba. E aí o silêncio, a distância – uma barreira invisível, fundamental à minha sobrevivência e, principalmente, à sua.

Como toda obra que flerta bastante com o Mal, Sobre o prazer de odiar carrega consigo uma preocupação moralista. Mas não achem que desejo reduzir o texto de Hazlitt, embora minha inveja e aquele já citado Ursinho Peludo do Modo Correto de Viver queiram me obrigar a fazê-lo. O escritor inglês aponta o dedo para a humanidade, mas ao mesmo tempo percebe o quanto odiar é necessário para todos nós. O seu ensaio o diz com toda clareza: “sem o que odiar, perderíamos a mola propulsora do pensamento e da ação”. E complementa, afirmando o quanto a ausência do ódio transformaria a vida em um “charco inerte”. Estou escrevendo em uma sexta-feira à noite; minutos antes, fui à cozinha pegar um copo de água. Minha mãe e minha irmã, felizes, me abordaram: “fizemos um mousse de maracujá”. Fiz uma careta e retruquei: “odeio mousse de maracujá”. Digo com toda certeza: nada me trouxe mais satisfação hoje do que odiar esse maldito mousse. Odiar os maracujás me encheu de vitalidade.

Não é por acaso que escritores odeiem tanto suas próprias criações. Mesmo os megalomaníacos, que se citam e se elogiam o tempo todo, no fundo também padecem desse mal. Acreditem em mim, convivi com vários deles. Um daqueles seriados citados no primeiro parágrafo, Penny Dreadful, é uma retomada de vários personagens e temas da literatura fantástica do século XIX. Um deles, o monstro de Frankenstein, criado por Mary Shelley. No seriado, Victor Frankenstein cria seu primeiro morto-vivo e depois o repudia. Como vingança, a Criatura retorna para atormentar o seu Criador. A metáfora básica desse tipo de narrativa seria o alerta contra a ambição humana de brincar de Deus, mas penso que também se trata de um mecanismo explicador da difícil relação com tudo aquilo que criamos. Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, tomou tanto ódio do seu personagem que teve de matá-lo. Meu atual escritor-quase-bom favorito é George R.R. Martin. Já leram recentes entrevistas com ele? A impressão que me passa é o quanto as pressões para finalizar seus livros o atormentam, a ponto de, talvez, detestar esses mesmos livros. Sim, o sucesso é um motivo para odiarmos quem criamos. Um conto, um romance, um verso, um personagem: nossos leitores os adoram, mas insistem em não gostar do que escrevemos depois disso. “É, tá legal, mas eu gosto mesmo é de X”. Acreditem, nada me dá mais pesadelos. Aqui, a Criatura continua retornando e nos humilhando com sua possível perfeição. Podemos, também, odiar aquilo que criamos por julgarmos não estar bom o suficiente. Frankenstein, ao terminar de criar, sentiu horror com seu próprio trabalho. Sua Criatura lhe pareceu abjeta, deformada, obscena. É assim mesmo. Se não conseguir destruir completamente o que não gostei de escrever, não consigo sequer me aproximar daquilo. Por isso, os exemplares do meu primeiro livro estão dentro de um armário, bem escondidos. Por fim, como Hazlitt aponta em certo momento do seu ensaio, o amor se transforma em indiferença. Podemos até continuar curtindo o texto escrito, mas chega um ponto no qual ele não nos interessa mais. Me entedio, deixo-o de lado e só me lembro dele se por acaso depositam o cheque que me deviam por tê-lo escrito.

Tudo isso é muito angustiante, porém fundamental. Não é que Hazlitt tem razão? Só o ódio à própria literatura pode nos afastar de construir uma obra morna e com gosto de água parada. O Criador e sua Criatura, bem como aqueles que se amam, devem continuar em uma luta constante, praticando até o fim dos tempos seu esporte sangrento. Quanto a mim, vou agora infernizar alguém na internet. Quem sabe, o escolhido da vez seja você.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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